Spray desinfetante é a arma do robô BGtech-19 para descontaminar ambientes infectados com o coronavírus

O engenheiro André Tchernobilsky, CEO da Bioguard: solução da empresa é parte de um reator milionário que transforma lixo em energia (Foto: Julio Rua)
Cláudia de Castro Lima | 22 out 2020

Em tempos de crise, heróis são necessários. Hoje, contra o grande vilão Sars-Cov-2, o vírus que provoca a Covid-19, um desses heróis é um robô – cuja arma é um spray desinfetante. 

Batizado de BGtech-19, o equipamento é produzido pela Bioguard (lê-se “baiogard”), uma empresa que nasceu durante a pandemia. A máquina autônoma é compacta e modular, e neutraliza ambientes de 30 a 500 metros quadrados da forma eficiente e rápida. 

O tempo de limpeza em um centro cirúrgico, por exemplo, é reduzido pela metade em comparação com a limpeza manual, liberando logo o local para uso.

Vagões de trem são totalmente desinfetados em apenas 7 minutos.

O processo, testado pelo Laboratório Eurofins, especializado em ensaios bio-analíticos, garante a descontaminação de 99,99% dos vírus, germes e bactérias, incluindo o novo coronavírus.

Entre o planejamento do robô e sua chegada ao mercado, passaram-se apenas dois meses. Mas isso porque a Bioguard e o BGtech são produtos de uma daquelas coincidências que muita gente atribui à sorte.

DA INDÚSTRIA AUTOMOTIVA PARA A DE RESÍDUOS SÓLIDOS

Depois de 20 anos trabalhando com inovação no setor automotivo, que o levou a morar em Luxemburgo por seis anos, o engenheiro André Tchernobilsky voltou ao Brasil em 2010, na época da instituição da Lei Nacional de Resíduos Sólidos.

Ele resolveu pedir demissão do emprego e empreender na área de saneamento, com uma recicladora de pneus. “Minha motivação era a questão da saúde, porque na época a dengue, cujo mosquito transmissor se reproduz também em pneus descartados, matava muitas pessoas”, diz ele.

“Mas eu me arrebentei na recicladora”, conta o empreendedor. “Uma série de questões, como problemas com segurança e burocracia nas licenças necessárias, me fez fechar a empresa em dois anos.” André resolveu tirar um período sabático, para entender o que faria.

Enquanto dava consultoria para empresas sobre resíduos sólidos, o engenheiro estudava uma forma de criar um reator que transforma lixo em energia. E conseguiu.

A ZEG, sigla para Zero Emission Generator, nasceu em 2012. “A tecnologia do reator foi desenvolvida e patenteada por nós”, explica André.

O reator levou quase sete anos para ficar pronto e demandou milhões de reais de investimento. A ZEG transformou-se em uma empresa de desenvolvimento de projetos para produção de energia renovável. As soluções da empresa fornecem energia elétrica, biogás ou vapor para o processo, a depender da necessidade de cada consumidor. 

“Você sabia que dos mais de 5.500 municípios do Brasil, quase metade tem lixões?”, questiona André. “As prefeituras coletam e apenas jogam o lixo de qualquer jeito nesse locais. E mais de 20 doenças, entre malformações e problemas respiratórios, já não existiriam mais se houvesse uma gestão do lixo. Cada R$ 1 investido em saneamento são R$ 4 que se deixam de investir em saúde.”

REATOR QUE TRANSFORMA LIXO EM ENERGIA ORIGINOU O ROBÔ

Em 2018, a ZEG, já com suas quatro unidades de negócio (biogás, hidro, solar e ambiental), recebeu um investimento milionário do Grupo Capitale e foi incorporada a ele. O projeto de uso do reator de tecnologia proprietária, que recebeu o nome de Flash Dissociation System (FDS), foi contratado pela Nexa, a antiga Votorantim Metais.

O robô em meio a névoa que ele provoca com uma solução feita com desinfetante e água

Quando o reator, que transforma o resíduo sólido em gás em menos de um segundo quando está em sua plena capacidade operacional, estava pronto para ser instalado na planta, chegou a pandemia. “A planta ficou parada”, diz André. 

O empreendedor também perdeu noites de sono. Nem tanto por isso, mas porque estava preocupado com a Covid-19 e sua alta taxa de contágio e transmissão. “Fiquei meio obcecado com isso e passei algumas noites sem dormir estudando sobre a doença”, lembra.

André leu que no Japão uma das alternativas para o combate à propagação da doença foi aumentar o grau de umidade de alguns ambientes, como casas de idosos. 

“A Covid é uma doença respiratória com índice de transmissão alto pelo ar. Aumentando a umidade do ar, ele fica mais denso e o vírus não consegue ‘viajar’ em suspensão por muito tempo. Ele cai na superfície”, explica ele.

Segundo André, um jeito de entender isso melhor é pensar que, em locais úmidos, as partículas que estão no chão, como as de poeira, não levantam voo. 

“A parte final do reator que desenvolvemos é um lavador de gás. Ele tem um spray de gotículas submicrométricas que fazem a supressão de gás tóxico, para que ele não seja emitido na atmosfera”, conta.

O engenheiro então pegou essa parte do reator e a transformou no robô BGtech-19.

Ele explica seu funcionamento: “O spray libera gotículas submicrométricas de sanitizante com água. O robô aumenta a umidade relativa do ar até o ponto antes do orvalho. A névoa que vai para o ambiente captura partículas do coronavírus, que caem na superfície e se diluem no sanitizante”.

O produto usado é certificado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e por órgãos como o FDA (Food and Drug Administration, a agência federal do Departamento de Saúde dos Estados Unidos). “É o mesmo que se usa em assepsia hospitalar”, diz o CEO da Bioguard.

A sugestão do fabricante é que as aplicações sejam feitas a cada rodízio de aglomeração.

BGTECH GANHA FAMÍLIA DE PRODUTOS

Os primeiros protótipos foram criados logo no início da pandemia. “Em maio já estávamos com a empresa criada, vendendo máquinas para os Estados Unidos e o Canadá”, diz André.

Os primeiros robôs foram doados por André para locais como asilos e empresas como CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). “Acreditamos que essas doações teriam impacto na sociedade”, diz.

Hoje, mais de 50 máquinas já foram vendidas para empresas como uma grande mineradora, o colégio Objetivo e a startup Easy Carros. “O nome Bioguard vem da ideia de proteção da vida”, conta o CEO. 

“Quem não quer baixar a guarda e continuar protegendo seu cliente ou seu colaborador vai ter que continuar adotando essas medidas de higienização e sanitização mesmo após a pandemia.”

Em agosto, o BGtech-19 ganhou uma família. Seu irmão mais novo foi chamado de BGtech Mini e desenvolvido em parceria com a multinacional a Spraying Systems para sanitizar casas e veículos (cabines de caminhão, ambulâncias e carros de passeio) com a mesma eficácia.

Nasceu também uma nova solução de sanitização: o Klarion, sistema capaz de produzir sanitizante e detergente in loco. “Com os novos modelos, as pessoas podem ter essa efetividade também em ambientes pessoais, onde têm passado a maior parte de seu tempo, com suas famílias”, diz o executivo.

Segundo a Bioguard, a higienização de um carro de passeio comum feita com o BGTech Mini dura apenas um minuto, em média.  O equipamento também permite a descontaminação do ar condicionado do veículo. Com cada tanque de sanitizante é possível limpar até 25 carros.

Já a outra novidade permite ao usuário produzir seu próprio sanitizante ou detergente. Com água e sal, o Klarion produz um sanitizante que, segundo a Bioguard, é eficiente – e já tem sido utilizado por redes de hotéis. 

“Com essa opção, incentivamos que as pessoas, indústria e comércio diminuam a geração de resíduos e, consequentemente, o uso de embalagens tóxicas e gases de efeito estufa com transporte e logística de produto”, diz André.


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