Como a morte de uma recém-nascida ajudou na criação de Laura, um robô que salva 18 vidas por dia

Após a morte da filha, Jacson Fressatto criou uma assistente digital que leva o nome da bebê e acompanha o paciente dentro e fora do hospital e abastece a equipe médica e de enfermagem com informações sobre sua saúde, evitando deficiência na percepção de pioras
Marcelo Orozco | 5 out 2020

Um drama pessoal contribuiu para a criação de um robô virtual capaz de, por meio de inteligência artificial e cruzamento de muitos dados, poder antecipar um quadro de piora clínica de um paciente hospitalar e evitar que ele se agrave a ponto de levá-lo à morte. 

A Laura, empresa baseada em Curitiba, no Paraná, nasceu há quatro anos para fazer esse atendimento a hospitais, operadoras de planos e secretarias municipais de saúde. E, recentemente, aprimorou uma versão de pronto atendimento digital (Laura P.A. Digital) específica para monitorar sintomas de coronavírus, que pode ser acessada por pacientes em suas residências.

A origem do robô foi o caso da filha do analista de sistemas Jacson Fressatto num hospital da capital paranaense. A menina Laura nasceu prematura, teve uma piora no quadro clínico que ninguém percebeu com antecedência, seguida de um choque séptico, e morreu com apenas 18 dias de vida. 

Jacson dedicou os anos seguintes fazendo pesquisas em hospitais para saber por que e com que frequência acontece essa deficiência na percepção de uma piora no quadro de um paciente. Descobriu que não era algo incomum, nem no Brasil nem no exterior. E se fixou na ideia de criar algo que pudesse ajudar médicos e enfermeiros a detectar precocemente problemas como o que aconteceu com sua filha e agir a tempo.

ENCONTRO FORTUITO RESULTOU EM PARCERIA

Em 2016, Jacson ficou amigo de alguém que tinha o know-how necessário para desenvolver e colocar em prática a ideia. Cristian Rocha acabara de voltar ao Brasil depois de fazer pós e mestrado no exterior. 

Formado em ciência da computação e inteligência artificial pela Universidade Federal do Paraná, Cristian se aperfeiçoou nas universidades Monash, na Austrália, e de Lyon, na França.

“Quando voltei ao Brasil, queria atuar em um projeto diferente, de impacto”, relembra hoje Cristian, 28 anos.

Ele é CEO e cofundador da Laura – e dá o crédito de fundador (sem o “co-”) para o pai da menina que batiza o negócio. 

“Conheci o Jacson, que me contou a história dele, da filha internada, dos sinais vitais que pioraram e ninguém percebeu até que era tarde demais. Começamos a investigar como a gente poderia usar a inteligência artificial para ajudar as equipes assistenciais e médicas a identificar riscos antecipadamente. E desenvolvemos a startup Robô Laura.”

Como nenhum dos dois era da área de saúde, eles contaram com a ajuda do médico Hugo Morales no desenvolvimento do robô. Os três seguem no comando da empresa, numa combinação dos talentos em áreas diferentes para garantir a excelência de Laura.

É bom deixar claro que, quando se fala em robô, não se trata de um objeto com rodinhas que anda para lá e para cá como a ficção científica acabou fixando nas mentes de muitos de nós. Laura é um robô, sim, mas totalmente virtual, que atua digitalmente em computadores, tablets e celulares. 

Cristian até se diverte ao fazer essa distinção entre robôs físicos e os virtuais como Laura: “É interessante porque, às vezes, a gente pensa que um robô é um elemento físico, um andróide. Mas a Laura é um robô virtual”, ele explica. 

“Faz perguntas, verifica dados, mostra informações, conversa com pacientes. Mas é uma assistente digital que funciona em todos os canais com uma inteligência artificial que acompanha o paciente dentro e fora do hospital, e sempre orienta a equipe médica e a de enfermagem.” 

Cristian Rocha, o cofundador do robô Laura e CEO da empresa

MILHARES DE VIDAS SALVAS

Depois de seis meses de desenvolvimento, com um investimento de R$ 3 milhões, o Robô Laura estreou em setembro de 2016 no Hospital Nossa Senhora das Graças, em Curitiba. Essa assistente virtual passou a monitorar sinais vitais e os exames de cada paciente, além de projetar qual seria o risco de piora clínica ou mesmo de mortalidade em cada caso. E mostrava isso em tempo real para que as equipes médicas e de enfermagem pudessem tomar agir imediatamente.

Hoje, a Robô Laura está presente em quase 40 hospitais. Inicialmente, se fixou nos estados da região Sul, mas já alcançou Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Falta apenas atingir a região Norte do país.

Nesses quatro anos, a Robô Laura analisou mais de 8 milhões de atendimentos (vale ressaltar que o acompanhamento de Laura não é feito apenas em casos clínicos graves) e reuniu um banco de dados enorme.

Estima-se que ela levou a uma redução de 10% no tempo médio das internações. E a empresa considera que sua assistente virtual ajudou a salvar mais de 24 mil vidas – uma média de mais de 18 por dia.

“A gente conta como uma vida que Laura ajudou a salvar cada caso de alerta de gravidade em que houve a intervenção do médico e o paciente não teve piora”, explica Cristian.

Agora os planos são de expansão. “Hoje nosso faturamento paga a operação. Mesmo assim, este é um momento muito importante do mercado e isso requer mais investimentos. Queremos realizar uma captação de cerca de 10 milhões de reais para crescer para o Brasil inteiro. Nossa meta é atingir cerca de 5 mil clientes novos nos próximos cinco anos”, afirma Cristian.

Laura em funcionamento no Hospital Erasto Gaertner, em Curitiba

INOVAÇÃO EM TEMPOS DE COVID-19

A mais recente novidade da Laura veio com a pandemia de Covid-19. A preocupação com essa doença levou ao lançamento da solução de Pronto Atendimento Digital (P.A. Digital) em abril, capaz de proporcionar acesso dos pacientes aos recursos da Laura mesmo em suas residências.

“Com o coronavírus, identificamos a necessidade de monitorar o paciente fora do hospital também. A solução vem fazendo muito sucesso e tem funcionado em vários hospitais, operadoras e secretarias municipais de saúde”, explica Rocha.

Com o P.A. Digital, é possível monitorar sintomas e a intensidade deles de acordo com o que o paciente conta ao robô. A pessoa acessa o serviço através da internet (seja o site do hospital ou similar) e responde às perguntas da Laura. São feitas triagens, definições do grau do quadro (leve, moderado ou grave), encaminhamento para teleconsultas com médicos e eventual recomendação de internação, onde o acompanhamento do robô será ainda mais próximo e mais exato, baseado em dados e não em descrições.  

O acompanhamento prossegue até que o paciente não apresente mais qualquer sintoma relacionado ao novo coronavírus. Laura monitora a pessoa fazendo uma checagem com perguntas por WhatsApp dias depois. 

A abordagem seria mais ou menos assim, bem resumidamente: “Oi, tudo bem? Você já melhorou? Você estava sentindo tais e tais sintomas quando a gente conversou…” e segue nessa linha. Se o paciente estiver bem, considera-se o atendimento finalmente encerrado.

A experiência que surgiu com a pandemia (ou seja, com uma doença específica) reflete os planos futuros da empresa. 

“Nossa estratégia de crescimento é fazer com que a Laura seja a assistente virtual ao lado do paciente em todos os momentos”, diz o CEO Cristian Rocha. “Desde as primeiras dores e primeiros sintomas em casa até a internação ou se ele precisar fazer um tratamento crônico. A Laura vai estar lá. A ideia é ser uma inteligência artificial que acompanha o paciente durante toda a jornada.”


Confira Também: