• Criado após um burnout na família do fundador, Zenklub oferece saúde emocional com terapia 100% online

    Ao propor sessões de terapia pela plataforma digital, sem custos fixos, solução desenvolvida pela startup de Rui Brandão permite que elas sejam até 70% mais baratas.
    Marcelo Orozco | 26 out 2020

    Português que morava no Brasil, o médico Rui Brandão foi para os Estados Unidos em 2015 fazer residência de cirurgia vascular. Lá estava quando sua mãe, juíza em Portugal, teve um severo burnout motivado por questões profissionais.

    Uma situação muito delicada que deixou claro para Rui a falta que faz um sistema de saúde emocional a que as pessoas possam recorrer com mais facilidade. E desse acontecimento drástico surgiu a ideia de criar o Zenklub, uma plataforma digital de atendimento psicológico.

    “Foi um momento bem traumático para mim, para ela, para a família inteira”, relembra Rui. “Infelizmente, junto com o burnout despontou uma psicose. A gente teve de internar, tudo que você possa imaginar, e essa situação se arrastou. Ainda se arrasta, cinco anos depois, e minha mãe já não é mais o que era.”

    Tal drama motivou o médico a fazer algo prático que pudesse ajudar os outros a lidar com a saúde mental e emocional.

    “As pessoas precisam parar de negligenciar suas emoções”, diz.

    Rui largou sua residência médica nos Estados Unidos e retornou a São Paulo. Por intermédio de um amigo comum, conheceu outro português aqui radicado: José Simões, PhD em ciência da computação e diretor de produto na empresa de e-commerce Dafiti.

    Se o médico já tinha a ideia de ajudar pessoas que estavam mal, o engenheiro vivia uma fase em que queria se desenvolver profissionalmente porque sentia que, apesar de bem sucedido, faltava mais conhecimento e propósito no que estava fazendo.

    Juntos, eles definiram o que seria o Zenklub. “A gente tinha duas hipóteses em mente. Uma: será que as pessoas vão agendar uma consulta com um profissional, um psicólogo, que nunca conheceram presencialmente? E a segunda era: será que elas voltam?”, recorda o hoje CEO do Zenklub, nascido no Porto há 30 anos.

    O que eles descobriram para responder a suas questões?

    Rui responde: “A gente viu que, sim, havia muita gente que queria esse canal digital.”

    Hoje, 60% dos clientes Zenklub são pessoas que nunca tinham ido a um profissional. “Notamos que havia uma demanda muito grande, com cada vez mais pessoas com problemas emocionais e com vontade de se conhecer, só que elas não sabiam como.”

    PLATAFORMA DIGITAL REDUZ CUSTO E VALOR DA SESSÃO EM 70%

    O Zenklub estreou em 2017. A opção por criar uma plataforma digital de atendimento psicológico aqui e não no país natal dos dois fundadores foi favorecida pelas condições mais propícias.

    Segundo Rui, “no Brasil, já era permitida a orientação psicológica online. E o Brasil tem uma aceitação de terapia maior que a média dos países do mundo”.

    Outra preocupação era oferecer um preço por consulta bem reduzido em relação ao dos consultórios presenciais. No Brasil, os preços sempre foram um fator que inibiu pessoas a procurar ajuda psicológica profissional.

    “Por isso é que a gente é 100% digital. Se temos uma estrutura automatizada para o profissional atender, não há o custo fixo de alugar uma sala”, explica Rui.

    “Ele não tem de se deslocar entre vários consultórios e clínicas, não fica restrito àqueles bairros e pode atender nacionalmente do local que quiser. Esse consultório digital que a gente cria reduz os custos e o valor da sessão em cerca de 70%.”

    “A média de uma sessão de terapia em São Paulo é R$ 250. No Zenklub, é R$ 75.”

    O investimento inicial foi “pouco”, segundo Rui, e com capital próprio dos dois sócios. Isso durou até o Conselho Federal de Psicologia regular essa área de atuação, que passou de “orientação psicológica” (mais limitada, sem caráter de tratamento) para “consulta psicológica” em novembro de 2018. Isso permitiria a expansão do Zenklub, e para isso, a startup teve seu primeiro investidor externo.

    “Começamos com uma proposta de valor, para mostrar como uma empresa de saúde emocional pode crescer sozinha e qual o potencial desse novo segmento. A gente trabalhou junto ao Conselho para mostrar nossos resultados. Passamos três anos desenvolvendo o conceito e entendendo o mercado até ele se abrir em 2019”, conta.

    Essa abertura levou o Zenklub, que até então só atendia a pessoas físicas, a começar a trabalhar também com empresas.

    Hoje, a plataforma está a caminho de ter 200 clientes corporativos, com nomes de peso como Ambev, Elo, Estadão, Natura, Tecnisa, Votorantim, Raízen e Nubank. E o CEO estima que a plataforma tenha “1,5 milhão de vidas elegíveis” para usá-la, seja pessoa física ou através da empresa em que trabalha.

    PANDEMIA FEZ NEGÓCIO B2B ACELERAR

    A maioria das empresas tornou-se cliente em 2020, muito por causa da pandemia de Covid-19 e dos dilemas emocionais que o isolamento social deixou aflorar.

    “Tínhamos apenas dez clientes corporativos no final de 2019. Devemos crescer umas cinco vezes em 2020. É o maior indicador do quanto a saúde emocional virou uma coisa importante”, avalia Rui.

    Com tudo isso, o Zenklub recebeu recentemente um aporte de R$ 16,5 milhões, de olho em sua expansão. A fatia maior veio do fundo português Índico Capital Partners, mas outros investidores brasileiros participaram. Esse montante servirá para aumentar a tecnologia e a base de clientes da plataforma em todo o país.

    “A pandemia acelerou uma onda que já estava vindo”, comenta Rui. “Em 2019, já estava muito claro um movimento de empresas e pessoas em relação a sua saúde emocional. A Organização Mundial de Saúde falava que a depressão iria ser a doença mais incapacitante em 2020. A pandemia acelerou toda essa educação”, afirma ele.

    “Sem escritório físico, aquele ambiente controlado que as empresas criavam, os RHs tiveram de se reorganizar em momento tão sensível. Isso quebrou todos os tabus”, acredita o empreendedor.

    “Cuidar da saúde mental era uma coisa só dos fracos. Mas todos temos horas boas e ruins e as empresas estão entendendo isso.”

    SUCESSO DIGITAL FEZ SEDES FÍSICAS SEREM FECHADAS

    Hoje, o Zenklub funciona de forma totalmente virtual. Aboliu suas sedes físicas em São Paulo e em Lisboa. Por um lado, por causa da pandemia que estimulou o home office em inúmeras áreas. Por outro, constatou-se que tudo vem funcionando muito bem sendo completamente digital.

    A plataforma conta hoje com 20 mil profissionais de todo o Brasil que se cadastraram. Mas apenas 515 passaram por uma criteriosa seleção para realizar consultas pelo Zenklub.

    “Há todo um processo de seleção para um profissional atuar conosco. A pessoa passa por uma prova, uma entrevista, um treinamento. E avalia-se também anos de experiência, currículo”, aponta Rui.

    O atendimento é feito totalmente no ambiente criptografado do Zenklub. Não pode haver contato entre profissional e paciente por outra via, nem mesmo WhatsApp, por uma questão de sigilo.

    Num passo a passo, o acesso é bem descomplicado. “Em três cliques, você consegue ter uma sessão agendada e entrar numa sala de videoconsulta”, afirma.

    Primeiro, a pessoa entra no aplicativo ou no site do Zenklub. Descreve o motivo pelo qual gostaria de realizar uma consulta, como ansiedade, problemas familiares ou de relacionamento amoroso. De acordo com o tema, a plataforma já exibe os nomes dos profissionais especializados nele.

    Para que a pessoa escolha um, há vídeos de apresentação, avaliação de outros pacientes e um breve currículo descrevendo formação e anos de experiência.

    O usuário escolhe dia e hora em que prefere marcar a consulta e se quer fazer por chat, áudio ou vídeo. No caso de ser pessoa física, e não benefício corporativo, efetua o pagamento (via cartão de crédito, débito, PayPal) e está tudo liberado para a primeira sessão.

    No site, nem se faz download de nada. Em celulares, a única coisa a ser baixada é o próprio aplicativo.

    Daí em diante, é como um acompanhamento psicológico em que o paciente vai ao consultório. Ele vai conversar sempre com o mesmo profissional e ter consultas semanais, quinzenais ou em qualquer intervalo que for combinado, criando um vínculo.

    Além das consultas, o Zenklub também oferece outros conteúdos. Como um registrador de humor em que o cliente pode dizer diariamente como está se sentindo e por quê. Isso ajuda a perceber padrões na rotina.

    E há um bônus educativo, que conta com um podcast semanal da jornalista Izabella Camargo, que sofreu um burnout quando era apresentadora de telejornais da Rede Globo e se identificou com a proposta do Zenklub. Nos episódios, ela recebe especialistas e entrevistados como o filósofo e educador Mario Sergio Cortella.


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