• Após aporte de R$ 54 mi, a ViBe Saúde quer conquistar com serviço freemium 5 milhões de pessoas sem plano de saúde até o fim do ano

    Segundo o CEO Ian Bonde, a ideia é ampliar a base B2C sem perder o foco no modelo B2B, que ganha força com uma parceria da healthtech com a Rede D’Or
    Cláudia de Castro Lima | 29 jan 2021

    Os números mágicos de Ian Bonde estão na casa dos sete ou mais dígitos. Empreendedor “meio sueco, meio argentino, nascido no Japão e que morou pelo mundo todo”, como ele se define, Ian é, ao lado do amigo e sócio Ricardo Joseph, o nome por trás da startup de saúde digital que recebeu um aporte milionário no começo do ano.

    Cofundador e CEO da ViBe Saúde, ele anunciou no fim de janeiro que sua healthtech recebeu R$ 54 milhões de investimento em uma rodada série A. A empresa, que a princípio operava apenas o modelo de negócio B2B, com sua plataforma de saúde e bem-estar voltada para o mercado corporativo, lançou no ano passado o serviço B2C e viu o número de downloads de seu app saltar de 100 mil para quase 700 mil.

    Os recursos que a healthtech captou serão destinados para consolidar e expandir o serviço freemium de atenção primária, que tem como foco os mais de 160 milhões de brasileiros que não têm plano de saúde e dependem do sobrecarregado sistema público.

    “Nosso objetivo é realmente ter um impacto na saúde do Brasil”, diz o CEO.

    Impulsionado por esse serviço, o plano é, nos próximos dois meses, alcançar 1 milhão de downloads e, no fim do ano, chegar a 5 milhões – ao fim e ao cabo, esse número corresponde praticamente à quantidade de vidas atendidas pela ViBe. 

    DE CONSULTORIA PARA O UNIVERSO DAS STARTUPS

    Ian e Ricardo se conhecem há 15 anos, desde quando trabalharam juntos na consultoria de gestão estratégica de Ian. “Fizemos vários projetos juntos e com muito foco em saúde”, diz o CEO da ViBe. “Trabalhamos ao longo da cadeia de valor, com hospitais, planos de saúde, empresas de tecnologia e algumas startups também.”

    A oportunidade de empreender no setor começou a ser vislumbrada em 2015. Nessa época, eles participaram como consultores de um projeto de uma empresa americana que trabalhava com obesidade infantil. “Nada a ver com o que a gente está fazendo hoje, mas o ponto é que isso nos despertou, na época, um interesse em saúde digital”, lembra Ian. 

    A empresa atuava no ambiente físico e queria escalar o negócio, por isso apostava na transformação digital. “Naquela época ainda não se falava muito de saúde digital.”

    Para o cliente, os dois começaram a desenhar num quadro branco ideias para uma possível solução no estilo one stop shop – ou seja, que oferecesse vários serviços relacionados em um só canal. 

    “Ele veio com diversas outras complexidades, porque se obesidade em si já é complicado, obesidade infantil é mais ainda”, diz Ian. “É preciso lidar com várias esferas: pais, escola, comunidade, governo.” 

    O projeto não teve continuidade, mas, no fim, os sócios tinham em mãos uma plataforma tecnológica totalmente integrada. Seria um desperdício descartá-la “Desenvolvemos então um aplicativo focado em saúde e bem-estar.”

    Desde a concepção até o produto entrar no mercado foram cerca de três anos. A ViBe Saúde foi lançada – o nome é uma abreviação de VivaBem Saúde – como uma plataforma digital com conteúdo e desafios de saúde e bem-estar para acompanhamento de atividade física com prontuário eletrônico e conexão a wearables.

    Acontece que, na época, ambos tinham muito trabalho com a consultoria e estavam só colocando dinheiro do próprio bolso na plataforma. Era preciso monetizar. “Ainda se falava pouco em investimento de venture capital em saúde digital”, lembra Ian.

    A saída foi firmar uma parceria com uma corretora, a Qualicorp, e começar a trabalhar com a plataforma no mercado B2B. O público-alvo eram empresas e operadoras que queriam melhorar a saúde de seus usuários, oferecendo uma solução de psicoterapia online, saúde ocupacional e monitoramento de doenças crônicas.

    PARCERIA NA SUÉCIA IMPULSIONOU NEGÓCIO

    Na Suécia, no entanto, o cenário das heathtechs era bem diferente do brasileiro. “Em 2017, saúde digital começa a bombar muito por lá”, diz o CEO. O “meio sueco” Ian acabou conectando-se com a Webrock Ventures, gestora sueca que investe exclusivamente no mercado brasileiro. 

    “Eles então me falaram de uma outra empresa daquele país, a Doktor.se”, conta Ian. “E me contaram como ela cresceu e se tornou uma das líderes na Europa em soluções de telemedicina.”

    ViBe e Doktor.se, por intermédio da gestora de fundos, estabeleceram uma parceria de inovação tecnológica para que a brasileira pudesse oferecer, de uma forma mais robusta, serviços de telessaúde em sua plataforma. Para Ian, voltar-se para o mercado B2C fazia mais sentido. 

    “É aí que está o real impacto”, afirma ele. “É estar focado em um mercado de 160 milhões de brasileiros que hoje não têm plano de saúde.”

    A parceria aconteceu depois de um aporte de R$ 12,5 milhões em uma rodada seed feito pela Webrock, em março de 2020. Em julho, a startup lançou seu novo aplicativo. “E daí a gente vai de mais ou menos 100 mil vidas, o que a gente estava trabalhando na parte corporativa, para quase 700 mil downloads.”, diz o empreendedor.

    Hoje, a ViBe mantém os dois modelos de negócio: um voltado para o B2B, com recursos de promoção e manutenção da saúde para funcionários de empresas clientes, e outro para o consumidor final.

    VIBE FREEMIUM: O SPOTIFY DA SAÚDE

    Para o mercado B2C, a ViBe oferece teleconsultas de forma gratuita, mas quem quiser serviços extras pode pagar um plano de assinatura – reside aí o conceito do serviço freemium. 

    Espécie de “Spotify da saúde”, o produto deixa à disposição do usuário basicamente todas as funcionalidades disponíveis. “E a ViBe oferece cinco consultas gratuitas por ano”, afirma. “Se você pensar que essa é a média de consultas anuais que o brasileiro faz, é muita coisa.”

    Caso o usuário ultrapasse essa quantidade de consultas ou queira usufruir de serviços mais premium, exatamente como nos modelos de música ou filmes em streaming, ele pode pagar uma assinatura que custa entre R$ 50 e R$ 60 mensais. Nela estão embutidas consultas irrestritas médicas e nutricionais, além de descontos com psicólogos e, em breve, em medicamentos. 

    “Fizemos muita pesquisa no mercado brasileiro e entendemos que o modelo não só é adequado para a faixa da classe C e D, que a gente busca conseguir ajudar, mas economicamente faz sentido para a empresa. A gente consegue fazer dinheiro dessa forma.”

    Ian destaca que usar o aplicativo é bem simples e intuitivo. Quando entra no app, o usuário pode participar de um chat com nutricionistas ou instrutores físicos ou agendar uma consulta com um especialista. 

    Hoje, estão disponíveis psicólogos, nutricionistas, treinadores físicos, instrutores de mindfulness ou clínicos gerais, médicos de saúde da mulher, nefrologistas, dermatologistas ou psiquiatras. 

    É possível ainda fazer um controle de suas horas de sono, minutos de exercício e alimentação, receber dicas para uma vida mais saudável ou consultar um especialista de acordo com seu sintoma: febre, tosse, alergia, entre outros.

    “Ele entra então em uma triagem, com uma enfermeira digital que se chama Ana, e explica seus sintomas”, conta o CEO. “Depois, ele fala com uma enfermeira que pode atendê-lo de uma forma muito mais otimizada. Se ela não conseguir resolver o problema, ele passa para um médico.”

    A ViBe atua em parceria com a Memed, empresa de prescrição digital, e recentemente firmou parceria também com a Rede D’or, que proporciona soluções de saúde digital para mais de 2 milhões de vidas sob gestão da D’Or Consultoria. Para os clientes B2C, a ideia é poder usar os ambulatórios e hospitais da rede.

    INVESTIMENTO EM CORPO CLÍNICO PRÓPRIO

    Em janeiro agora, a ViBe anunciou mais um investimento feito pela Webrock Ventures, desta feita de R$ 54 milhões. Segundo Ian, o recurso será usado em branding, para ampliação da base de clientes e, para absorver o crescimento exponencial que a empresa espera, em seu corpo clínico próprio, com contratação de enfermeiros, médicos e psicólogos. Hoje são cerca de 60, mas a expectativa é que no fim de 2021 sejam 300.

    “São poucas as empresas que trabalham com um corpo clínico próprio”, diz Ian, sobre um dos diferenciais da ViBe.

    “É um investimento, mas pensamos em retorno futuro tanto em qualidade do serviço, já que temos nossos próprios protocolos e nossa cultura, assim como na questão de custo.” 

    Segundo ele, ter a própria equipe de saúde possibilita conter os custos. “Quando se trabalha com terceiros, você está sempre colocando um markup no preço que essa pessoa cobra para uma consulta. No nosso caso, elas ganham salários e a gente consegue controlar melhor.” 

    Sócio da Webrock Ventures, responsável pelos dois aportes milionários na ViBe, Vitor Moreira explica que sua empresa se considera uma “venture builder”. “Basicamente a gente constrói empresas ou ajuda a construí-las. Fazemos isso baseados em alguns pilares”, diz. 

    “O primeiro é identificar tendências e modelos de negócios inovadores que já deram certo na Suécia ou Escandinávia e que ainda não existem ou estão muito no início no Brasil”, afirma. “Assim, de certa forma, trazemos inovação para o país através de parcerias.”

    Depois de identificar as tendências, a Webrock procura um par sueco para trazer seu modelo de negócio. No caso da ViBe, a parceira foi a Doktor.se. “A ideia é desenvolver a tecnologia junto do parceiro brasileiro. E a empresa entra com parte do capital também.”

    Telemedicina, diz Vitor, já era uma tendência na Europa muito antes da pandemia de Covid-19. “Obviamente a pandemia ajudou a acelerar essa curva de adoção e engagement de clientes no mundo todo, mas só na Suécia havia três players super-relevantes – um deles era a Doktor.se”, conta. 

    FOCO NO B2C É UM DIFERENCIAL

    Ian cita ainda outro fator que, segundo ele, atraiu a atenção da Webrock. “Há um grande número de healthtechs sérias de saúde no país, mas a grande maioria delas tem como foco o mercado B2B”, diz. 

    “Todas elas fizeram parceria com operadoras, planos de saúde, e ficou esse vácuo do B2C, que é um problema mais complexo de se resolver”, continua. “E a gente se posicionou nesse setor de uma forma rápida, e estamos acentuando nossa liderança nele.”

    O CEO gosta de reforçar que a ViBe não é uma empresa de telemedicina. “Somos uma empresa de saúde digital”, atesta.

    “Nosso conceito é o de one stop shop, de ter uma clínica no bolso da pessoa, no celular dela, para ela conseguir fazer tudo ali – e uma dessas coisas é a telemedicina.”

    Pergunto a Ian Bonde quando ele percebeu que sua startup tinha dado certo. “Todo dia quando acordo e toda noite quando vou dormir me faço essa pergunta”, ele diz.

    “Mas o mercado de saúde digital é tão novo e está crescendo de tal forma que o nosso trabalho como empreendedor é ir se reinventando quase todos os dias.”

    Ele para e pensa. E continua: “Sabe quando realmente a gente sente que o negócio deu certo? Esquece números, porque somos um startup e estamos em plena fase de crescimento. É mais quando você começa a perceber que não tem uma ou 10 ou 20 pessoas falando bem de seu trabalho, mas quando tem 6 mil pessoas no Google Play baixando seu aplicativo, e todos os dias esse número aumenta”, diz. 

    “É quando as pessoas falam que você está mudando a vida delas. Isso, sim, é não só inspirador, mas uma prova de que você está fazendo a coisa certa.”


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