• “Quando vamos entender de uma vez por todas que telemedicina é medicina?”

    Marcelo Fanganiello, diretor da GetConnect
    Marcelo Fanganiello | 16 jul 2021

    É até um fator de surpresa, a esta altura do campeonato, depois de inúmeras comprovações da diferença que a telemedicina fez na prática ao longo desses meses todos de pandemia, que estejamos falando de algo que não é definitivo. 

    O Congresso regulamentou a prática em caráter de urgência, mas agora discute, junto com o Conselho Federal de Medicina, as regras para o futuro

    Por ora, ainda continuamos nesse cenário incerto – mas, como todos esperamos, isso um dia vai passar e, ao contrário do que muitos costumam dizer, nem a vida e nem a medicina voltarão ao normal. 

    Experimentamos tanta conveniência e nos sentimos tão próximos dos médicos, amparados, que vai ser difícil achar alguém que queira voltar a enfrentar filas nos pronto-atendimentos em vez de fazer uma consulta por meio de plataformas de telemedicina. 

    E então nos deparamos com dois aspectos que estão chamando bastante atenção durante todo esse processo de tramitação da regulamentação: 

    1) a proibição da primeira consulta via telemedicina e 
    2) a impossibilidade de médicos atenderem pacientes de outros estados. 

    Esses são, na verdade, pontos que vão contra as vantagens importantes da tecnologia: uma, por desafogar e agilizar o atendimento; a outra, por levar o acesso à saúde de qualidade e especialistas a lugares remotos. 

    É nosso direito de escolha, como cidadãos, tanto contar com a autonomia e a capacidade do médico de saber o que é melhor para o paciente quanto a ampliação do acesso à saúde – e ambos estão sendo colocados em cheque. 

    CÁ ENTRE NÓS: TELEMEDICINA NÃO É NOVIDADE ALGUMA

    Não estamos falando de uma novidade ou de algo que esteja disponível agora e de forma precária. A telemedicina já existe há muitos anos – só eu já venho há 16 anos trabalhando no desenvolvimento de soluções seguras para que os profissionais de saúde possam prestar esse serviço. 

    E olha que isso já vem de antes. No sentido amplo, existe um artigo de 1879, publicado na Lancet, que fala sobre o uso do telefone para evitar as idas desnecessárias aos consultórios. Há 95 anos também falou-se também do uso do rádio. Então por que ainda estamos discutindo isso?

    Hoje existem inúmeras tecnologias que ajudam a garantir a eficiência desse processo, somadas a excelentes profissionais. E não estamos falando de uma orientação via chamada de vídeo de WhatsApp, Skype, Zoom ou Google Meet. 

    Estamos falando de tecnologia propícia para essa finalidade, sendo algumas mais seguras ainda por estarem registradas na Anvisa. Câmeras que ajudam a tornar o diagnóstico mais preciso, carts que levam o equipamento mais próximo do paciente, proteção dos dados. 

    Recursos que garantem segurança tanto para o médico como para o paciente, que está no centro do cuidado. 

    São tantas aplicações, tantas possibilidades. Vou citar bem poucas. Temos, por exemplo:

    • o atendimento de profissionais embarcados em plataformas de petróleo ou navios 
    • a possibilidade de acompanhar os sinais vitais de vítimas de acidentes e contar com o apoio de um especialista ainda em trânsito para o hospital
    • permitir que populações ribeirinhas e indígenas tenham acesso a especialistas

    Há ainda inúmeros outros exemplos que antecedem, são contemporâneos e transcendem a pandemia.  

    TELEMEDICINA É MEDICINA, MAS POR OUTRO MEIO

    É claro que as preocupações são genuínas. Até por isso seguimos com pesquisa e desenvolvimento para cada vez mais aperfeiçoar as soluções. 

    São tecnologias que agregam inteligência artificial e outros recursos que permitam melhores diagnósticos, aumentem a eficiência, agilizem o atendimento, agreguem valor ao paciente e ao profissional, reduzam custos e ampliem o acesso à saúde, entre outros inúmeros benefícios que a telemedicina e a tecnologia trazem.  

    Mas, é preciso relembrar que telemedicina nada mais é do que um ato médico, só que por um outro meio. 

    O médico não colocará um paciente em risco ou negligenciará o tratamento presencial.

    Ele sempre escolherá o que é melhor para o paciente e por isso, ele, e somente ele, deve ter a prerrogativa dessa decisão: atender o caso específico de forma remota ou não. 

    Por isso tudo, vale realmente pensar que mais entraves na regulamentação podem atrasar ainda mais a busca por qualidade em saúde. 

    **

    Marcelo Fanganiello é diretor da GetConnect, divisão de Telemedicina, Integração e Conectividade da Oxy System, que desenvolve plataformas gestão em saúde, integrando ferramentas tecnológicas de ponta e projetos de telemedicina para o mercado, priorizando a humanização.


    Confira Também: