• Como o sequenciamento de DNA ajuda a equilibrar as bactérias do intestino – e, consequentemente, a perder peso

    Doutor em Genética e Biologia Molecular e CEO da startup BiomeHub, Luiz Felipe Valter de Oliveira explica por que a microbiota intestinal ganhou tanta popularidade, qual sua ligação com a obesidade – e como a tecnologia pode contribuir
    Luiz Felipe Valter de Oliveira | 21 maio 2021

    A mais recente Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, divulgada pelo instituto no fim do ano passado, mostrou que 96 milhões de brasileiros, o equivalente a 60,3% da população adulta do país, estão com excesso de peso.

    Os dados preocupam porque a obesidade já é considerada uma epidemia global e está diretamente relacionada ao desenvolvimento de doenças crônicas, diabetes e até câncer.

    As principais causas desse excesso de peso, segundo especialistas, são o consumo de alimentos processados ricos em calorias e a falta de atividade física diária.

    A microbiota intestinal é composta por inúmeros microrganismos que podem conviver com o ser humano sem causar qualquer tipo de doença ou malefício ao bem-estar. Pelo contrário: eles auxiliam desde o nascimento à manutenção de funções fisiológicas.

    O que muita gente não sabe é que a sua composição pode ter um papel na regulação do peso corporal – e é possível ajustá-la com uma dieta adequada.

    O QUE A ALIMENTAÇÃO TEM A VER COM A MICROBIOTA

    Os hábitos alimentares são fator determinante do tipo de bactérias que temos ou teremos no intestino. Pesquisas científicas têm mostrado que uma dieta que consiste em alimentos altamente processados tem sido associada a uma menor diversidade de microrganismos intestinais.

    Essa dieta não saudável impede que os grupos bacterianos benéficos se desenvolvam no intestino. Logo, uma microbiota intestinal saudável e equilibrada resulta em um desempenho normal das funções fisiológicas, ajudando na perda de peso.

    Esses estudos mostram que indivíduos que seguem uma dieta rica em fibras e pobre em gorduras (basicamente vegetariana) têm níveis mais elevados de bactérias probióticas fermentadoras em comparação a indivíduos que tenham uma dieta moderna, rica em gorduras e pobre em fibras.

    A alta disponibilidade de fibras no intestino eleva a produção de substâncias benéficas, como o butirato, que induz a proliferação de bactérias com ação anti-inflamatória.

    Já pessoas com dieta baseada somente em alimentos industrializados e baixo consumo de fibras provavelmente não conseguirão multiplicar e manter as bactérias benéficas ao intestino

    COMO CRIAMOS UMA “ASSINATURA DE OBESIDADE”

    Um estudo publicado na principal revista internacional especializada em gastroenterologia, a BMJ Journal Gut, também mostrou que indivíduos obesos criaram uma “assinatura de obesidade” dentro de seu microbioma intestinal, que moldou o funcionamento do metabolismo.

    Esse efeito pode aumentar a dificuldade de perder peso e facilitar a recaída após a perda de alguns quilos, mesmo com uma dieta normal.

    Essa “assinatura” é definida por mudanças nas populações bacterianas que podem contribuir para mudanças no metabolismo através de fatores genéticos e ambientais.

    Há ao menos outros dois estudos científicos – publicados pela editora Springer Nature, líder global em disseminação de pesquisas, e pela especialista em microbiologia de alimentos Frontiers in Microbiology – que apontam a existência de duas bactérias intestinais relacionadas à prevenção do ganho de peso e são frequentemente encontradas em pessoas magras, aquelas com índice de massa corporal (IMC) menor do que 18,5.

    Elas são a Akkermansia muciniphila e Christensenella minuta. É possível aumentar a abundância dessas bactérias por meio do consumo de cranberries, chá preto, óleo de peixe e sementes de linhaça.

    A Christensenella é altamente hereditária, o que significa que há mais chances de essa bactéria estar presente no intestino de pessoas de uma mesma família.

    Um estudo realizado na China indica uma associação desta bactéria à longevidade humana, com base na observação de que a abundância de Christensenella é maior em centenários e supercentenários, em comparação com indivíduos mais jovens em populações do país asiático.

    Além disso, há diferenças nas composições da microbiota intestinal de pessoas saudáveis e obesas.

    Indivíduos com acúmulo excessivo de gordura corporal – cujo Índice de Massa Corporal (IMC) é maior ou igual a 30 kg/m2, de acordo com a Organização Mundial da Saúde – apresentam um desequilíbrio entre bactérias protetoras e agressoras no intestino com a produção de efeitos nocivos ao organismo, a chamada disbiose.

    TECNOLOGIA PERMITE “FOTOGRAFIA” DO INTESTINO

    Uma boa notícia é o fato de já haver tecnologias capazes de ajudar profissionais da nutrição a conhecer quais bactérias estão colonizando o intestino e, assim, indicar a alimentação mais apropriada para cada pessoa.

    O monitoramento do microbioma intestinal pode ser realizado através do sequenciamento de DNA a partir de amostra de fezes.

    Desde o final dos anos 1990, com o advento da biologia molecular, várias técnicas de identificação bacteriana têm surgido, permitindo diagnósticos mais precisos.

    Dentre essas ferramentas já existem testes, feitos a partir da coleta de fezes, capazes de detectar a composição da microbiota intestinal, identificando bactérias que promovam a saúde, além de patogênicas e associadas a doenças.

    Essa “fotografia” precisa e ampla da saúde do intestino é resultado da combinação do sequenciamento genético de DNA aliado a análises de bioinformática.

    É um método que traz informações que não podem ser acessadas por exames laboratoriais convencionais, permitindo a identificação não somente de um organismo, mas de toda a comunidade bacteriana intestinal.

    Com o resultado, o profissional de saúde tem condições de elaborar uma dieta mais acertada para aquele indivíduo.

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    Luiz Felipe Valter de Oliveira é doutor em Genética e Biologia Molecular e CEO da startup de biotecnologia BiomeHub


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