• Nanomedicina, Deeptech, Internet of Medical Things: algumas tendências (e várias oportunidades) para ficarmos de olho

    Marcos “Rasta” Schestak, CEO e fundador da BASE Digital e sócio da healthtech Selectivor, com sede no Vale do Silício, mapeia alguns dos principais rumos de digital health e analisa como as tecnologias podem moldar o futuro do mercado e da sociedade
    Marcos Rasta Schestak | 4 jun 2021

    Deeptech, nanomedicina, Internet of Medical Things, saúde data-driven. Esses são alguns dos termos – e negócios – que vamos ouvir cada vez mais daqui para frente. Acelerada pela pandemia, a transformação digital da saúde deu um chacoalhão nas estruturas do setor e impulsionou a adoção de novas tecnologias e procedimentos.

    Esse movimento vai abrir inúmeras oportunidades para startups, investidores, profissionais da área médica e, claro, a sociedade, que já começa a perceber mais de perto os benefícios da tecnologia aplicada à medicina.

    Por isso é um bom exercício mapear algumas das principais tendências em digital health e analisar como elas podem moldar o futuro do mercado e da sociedade.

    Talvez a tendência mais visível seja a telemedicina. Com a necessidade de isolamento social, a partir de março de 2020, esse procedimento se tornou necessário para garantir a segurança de médicos e pacientes.

    Assim, foi aprovada em abril do ano passado a lei nº 13.989, que permite o atendimento médico a distância durante a pandemia – quando o vírus Sars-Cov-2 for controlado, a regulamentação dessa atividade poderá ser feita pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).

    O curioso é que a teleconsulta é discutida há muitos anos no Brasil, mas sempre enfrentou barreiras para que pudesse ser liberada de forma mais ampla. Questões culturais e corporativismo são alguns dos motivos que dificultavam a alteração na legislação.

    Até que veio a pandemia, essa aceleradora de futuros capaz de provocar mudanças culturais, legais e tecnológicas profundas em todas as áreas.

    Mas a transformação digital da saúde, claro, vai muito além da telemedicina. O Brasil tem assistido ao fortalecimento das startups de saúde de diversas áreas, como mostra o estudo Healthtech Report, relatório mensal realizado pelo Distrito Dataminer, unidade de inteligência da Distrito. Segundo o estudo, o Brasil tem atualmente 747 startups de saúde, quase três vezes mais que em 2015 (quando 265 foram mapeadas).   

    O estudo aponta que 25% das healthtechs do país atuam nos setores ligados à gestão (hospitalar, clínica, prontuário eletrônico e laudos), à frente das startups voltadas ao acesso à informação (16,5%) e marketplace (13,6%). 

    E os investidores estão com apetite. Só no primeiro bimestre deste ano já foram investidos US$ 90 milhões nas startups desse tipo no Brasil.

    Foram 12 rodadas de investimentos, e o valor corresponde a cerca de 85% do total investido em 2020, segundo o Healthtech Report.  

    Essa é a fotografia do momento. O processo, no entanto, está apenas no começo. Um olhar mais ampliado sobre as tendências internacionais mostra que deveremos assistir, nos próximos meses e anos, ao surgimento de um número cada vez maior de startups healthtech com soluções sofisticadíssimas.

    Esperemos de robôs a modelos de atendimento domiciliar, passando por soluções que envolvem realidade aumentada e virtual e uma hiperpersonalização de serviços e produtos, tendo os algoritmos inteligentes e os dados como vetores da inovação.

    Para dar uma pista que vem por aí, selecionei algumas tendências para ficar de olho.

    1.      Internet of Medical Things
    Conforme a saúde se digitaliza, a conectividade vai se tornar um item crucial para os equipamentos médicos e serviços hospitalares. Isso já tem levado muitos especialistas no exterior a se perguntarem se (e como) as cidades inteligentes e a Internet das Coisas podem se conectar para monitorar dados de saúde e, assim, contribuir para a prevenção de novas pandemias no futuro. É o que já está sendo chamado de Internet of Medical Things, um novo filão para empreendedores e investidores.

    2.     Realidade virtual e aumentada para cirurgias e atendimentos
    Com ajuda de fones de ouvidos e softwares especiais, os médicos vão poder utilizar essas tecnologias imersivas para atendimento a distância ou em treinamento para cirurgias. Os recursos também deverão ser incorporados ao treinamento de estudantes e técnicos de enfermagem.

    3.     Deeptech e Inteligência Artificial (IA)
    Mesmo antes de 2020, a IA já era vista como uma tecnologia importante para aumentar a eficiência da gestão hospitalar. Agora, deve crescer sua utilização para uso clínico e em atendimentos a distância e associadas a projetos de Deeptech, ou tecnologia profunda, que se relaciona a grandes descobertas científicas, testes em laboratórios e propriedade intelectual. 

    “Agora chegamos a um ponto em que a IA e o Machine Learning estão acontecendo de fato na saúde”, disse em entrevista ao site Sifted, do Financial Times, a investidora-anjo Pam Garside, que tem em seu portfólio startups como a Kheiron Medical, que usa IA para avaliar mamografias.

    4.     Redesign de hospitais e tecnologias de higiene e limpeza
    O coronavírus tem levado os hospitais a alterarem o layout de seus espaços e a estudarem novas formas de atendimento, de forma a reduzir aglomerações e o contato entre as pessoas. Isso deve aumentar o uso, por exemplo, de robôs autônomos que emitem luz ultravioleta para eliminar germes e descontaminar salas em 15 minutos, segundo uma reportagem do site internacional Healthtech Magazine. Até tecnologia RFID para monitorar com que frequência os funcionários lavam as mãos começa a ser testada em outros países.

    5.     Nanomedicina
    A nanotecnologia aplicada à medicina é outra tecnologia que deve ganhar força daqui para frente. A pesquisa nesse campo inclui um leque amplo de soluções, como nanorrobôs e biossensores minúsculos, que podem ser utilizados para diagnósticos, por exemplo.

    6.     Hiperpersonalização do cuidado
    Assim como já acontece em outros setores, como no marketing digital, as tecnologias de personalização da experiência devem avançar rapidamente na área da medicina. Já estão surgindo no exterior serviços de saúde adaptados para mulheres, público LGBTQIA+ e comunidades negras. O Grace Health, por exemplo, é um aplicativo sueco que se apresenta como “o primeiro assistente digital da saúde feminina”. As usuárias podem monitorar sua saúde usando previsões baseadas em IA e com suporte 24 horas. A tecnologia genômica também deve crescer. “A personalização é uma tendência significativa”, disse a investidora-anjo Pam Garside ao Sifted.  

    Essas são apenas algumas tendências que já podemos vislumbrar num futuro não muito distante. A transformação digital da saúde está apenas no começo, o que significa que veremos diversas outras inovações brotarem rapidamente no mercado. O cenário que se apresenta para startups, investidores e empresas do setor saúde promete ser intenso, movimentado e repleto de oportunidades.

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    Marcos “Rasta” Schestak é CEO e fundador da BASE Digital e sócio da healthtech Selectivor, com sede no Vale do Silício.


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