• Como duas empreendedoras inovaram a jornada das gestantes com a femtech Theia

    Oferecendo uma solução voltada a cuidados femininos, Flavia Deutsch Gotfryd (à esq.) e Paula Crespi querem dar informação, acesso a bons profissionais e acolhimento para as futuras mães – e ainda ajudar a inserir mais mulheres no mercado das startups
    Lucas Baranyi | 10 mar 2021

    Atrás apenas da República Dominicana, o Brasil é o segundo país do mundo que mais realiza cesáreas – 55% dos partos acontecem através do método. E nem sempre essa é uma escolha da gestante, seja por falta de informações ou pela predileção de médicos. A situação se agrava quando outro número entra na conta: estima-se que uma em cada quatro mulheres sofra algum tipo de violência durante o parto.

    Ao perceber esse cenário, as empreendedoras Flavia Deutsch Gotfryd e Paula Crespi tiveram o gatilho que as levou a criar a femtech Theia. “Faltam não apenas informação e acesso a bons profissionais, mas também acolhimento e respeito”, afirma Flavia. 

    “Uma das palavras que mais escutamos em nossas pesquisas sobre a maternidade foi ‘medo’”, diz a CEO da Theia.

    “Medo de não conseguir engravidar, medo de o bebê não estar bem, medo do parto, medo de não ser boa mãe. Queremos garantir que as mulheres saibam que não estão sozinhas nessa jornada e que têm uma rede de apoio incrível para contar.”

    A startup nasceu com o intuito de fornecer cuidado coordenado e multidisciplinar para a mulher, com médicos que irão acompanhar a gestante desde o pré-natal até os primeiros tratos com o bebê. 

    Mas, para entender melhor a Theia, é preciso observar a própria história de vida das duas criadoras da femtech.

    FLAVIA E A BUSCA POR IMPACTAR A VIDA DAS PESSOAS 

    Praticamente todos os familiares próximos de Flavia trabalham com saúde. “Meu avô foi um dos primeiros médicos de São Paulo – e até já homenagearam ele no filme ‘O Ano Em Que Meus Pais Saíram De Férias’, que se passa na época da ditadura”, conta ela. 

    “Meu avô, e a gente só soube de várias histórias depois que ele morreu, foi muito importante para a vida de várias outras pessoas. Todo mundo sempre falava sobre ele ser o médico do corpo e da alma, e ser uma referência médica”, ela continua, orgulhosa. 

    “Ele era muito conhecido pelo diagnóstico, pelo tratamento, por cuidar das pessoas de forma holística, menos dependente de exames – e olhando com um olhar que realmente ia além só do corpo, olhando o todo”, completa. 

    O pai e mãe de Flavia também são médicos, e ela cresceu assistindo o impacto desse trabalho na vida das pessoas. O problema: ela não achava que tinha vocação para seguir os passos da família e fazer medicina.

    Flavia buscou então uma carreira em administração, trabalhando por seis anos no mercado financeiro. Não ter impacto reais na vida de outras pessoas, porém, pesou. E ela foi fazer um MBA na Universidade de Stanford, para empreender e tentar ajustar esse caminho na sua vida profissional.

    Foi lá, aliás, onde ela e Paula se conheceram. “Isso foi entre 2009 e 2010, uma época em que não existia um ecossistema de startup como existe hoje”, pondera. 

    “Quando voltei, decidi procurar  um empreendedor que eu realmente admirasse e quisesse construir um negócio com um propósito.” Foi assim que ela entrou na Acesso, uma fintech que tinha como objetivo bancarizar a população sem conta no Brasil – cerca de 45 milhões de pessoas, segundo dados de 2019.

    Flavia passou seis anos na Acesso e, em 2018, teve seu segundo filho. Foi quando ela entendeu que era hora de empreender sozinha. “E se tinha alguém com quem eu adoraria empreender junto era a Paula”, conta. 

    “Eu a chamei para jantar com a intenção de convencê-la, mas nem precisei. Ela já estava nesse momento da vida também”, relembra. 

    PAULA E O TIMING PERFEITO PARA EMPREENDER

    Paula Crespi passou muitos anos trabalhando na Whirpool, realizando desenvolvimento de produtos físicos, e buscava novos olhares profissionais quando decidiu fazer o MBA em Stanford. 

    “Lá, eu entrei em contato com todo esse mundo da tecnologia, da startup, de empreender. É algo que eu não conhecia muito, e voltei muito provocada por isso, e já com uma ideia de explorar mais esse universo”, diz. 

    Ao retornar, Paula trabalhou no Guia Bolso, onde ficou por cinco anos. “Durante essa trajetória, fui acompanhando a Flavia também, e a gente conversou algumas vezes sobre a ideia de empreender juntas”, diz. 

    “Nós notávamos que muitos dos homens, colegas nossos, estavam indo empreender, e as mulheres normalmente iam ser o braço direito do empreendedor”, reflete.

    O timing para a criação da Theia não poderia ser mais ajustado: enquanto montava o business plan da femtech, Paula descobriu que estava grávida do primeiro filho. 

    AFINAL, O QUE É UMA FEMTECH?

    Mudança na vida das pessoas, conexão com o outro e resultados palpáveis. É assim que as empreendedoras definem as missões da Theia, que começou a ser esboçada no início de 2019. 

    “Criamos um framework em que a gente passava as ideias. A gente queria empreender em um setor grande, e que sofresse uma dor muito real, para que a gente pudesse ter impacto na vida das pessoas”, diz Paula.

    Mas não era só isso: a ideia era que a tecnologia pudesse ser um catalisador de mudança. “Ela levaria escala, acessibilidade, com modelos similares no exterior, que mostrassem que existia um caminho fora do país”, explica. 

    O termo femtech é justamente a junção de female (ou feminino) com technology (tecnologia). Femtechs surgem, portanto, como tendência na busca de resolver problemas comuns às mulheres usando soluções tecnológicas.

    Flavia e Paula descobriram, nesse processo, que o universo da saúde era uma paixão compartilhada. “Muita coisa mudou nos últimos dois anos, mas a gente via como a tecnologia estava mal empregada e poderia realmente mudar, em termos de experiência, de acesso, de qualidade, a vida das pessoas”, conta Paula.  

    INEFICIÊNCIA DO SISTEMA DE SAÚDE SENTIDA NA PELE

    Durante os primeiros estágios da Theia, Paula sentiu na pele a ineficiência do sistema de saúde brasileiro – tanto em relação aos custos quanto à desinformação, que provoca medo em milhões de mulheres. 

    A vontade de ambas era criar um negócio que trouxesse mais mulheres para empreender em tecnologia. Mas, ao depararam com o quanto mulheres são desassistidas no universo da saúde, os planos mudaram.

    “É um sistema de saúde que foi feito por homens e para homens, e isso traz consequências graves para todos”, diz Paula. “A situação fica ainda pior na gestação, que é o momento em que você está na sua fase mais vulnerável – seu corpo não parece mais ser seu, você não entende o que está acontecendo.”

    Paula e Flavia tinham acesso aos melhores profissionais da medicina e, ainda assim, julgaram que suas jornadas como gestantes foram complicadas. 

    “Imagina as mulheres que não têm esse acesso todo a informação, a ótimos profissionais, a quase um serviço de concierge médico?”, questionou Flavia na época. 

    “Ser mãe é uma jornada muito solitária, e você se sente às vezes muito à deriva. Foi isso que nos fez querer mudar a vida das pessoas – ou da gestante. As mulheres estão literalmente mudando o mundo,  e a gestação é literalmente o começo de tudo.”

    UMA MULHER APOIA A OUTRA

    Flavia, a CEO, e Paula, a COO: entre as ainda pouquíssimas fundadoras de startups

    Durante anos, Flavia foi a única diretora na Acesso. Paula tampouco estava rodeada de muitas outras mulheres no seu ambiente de trabalho anterior. O fato de haver poucas lideranças femininas no país foi uma das pautas das duas no jantar que daria origem à Theia. 

    “A gente quer mudar essa estatística”, afirma Flavia. “Temos a nossa missão na Theia, do problema que a gente quer resolver, e a nossa missão pessoal: trazer mais mulheres para empreenderem em tecnologia, e trazer mais mulheres para posições de liderança em em startups.”

    De fato, o relatório “Female Founders Report 2021”, relatório divulgado nesta semana pelo Distrito, plataforma que ajuda empresas a se transformarem com a inovação, em parceria com a aceleradora B2Mamy e a Endeavor mostra que só 4,7% das startups foram fundadas exclusivamente por mulheres.

    Além disso, mais de 90% delas têm apenas homens em seus quadros de fundação e somente 0,04% dos aportes realizados em 2020 foram destinados às startups fundadas exclusivamente por elas.

    “Eu e Flavia fizemos um curso que tem um viés de empreendedorismo enorme e que nos proporcionou um nível de relacionamento no mercado que poucas pessoas têm”, afirma Paula. 

    “O que a gente ouve do mercado é que, sim, é muito difícil para mulheres conseguirem ter acesso a investimento, a esse network. Quando mulheres entram em contato com a gente, escutamos e viramos advisors das que estão nessa jornada – até que a gente ajude a inserir mais e mais delas dentro dessa rede.”

    Desde o início da pandemia de Covid-19, a Theia trabalha em regime remoto – e, segundo Flavia, a femtech já nasceu com o propósito de facilitar o teletrabalho. 

    “É muito importante para as mulheres e homens que querem conciliar carreira e família ter a flexibilidade de poder trabalhar de casa ou do escritório”, conta. 

    Com um time de atualmente 15 pessoas, a Theia tem seu quadro preenchido majoritariamente por mulheres. “Temos um homem na liderança e o resto da liderança toda é feminina”, diz Flavia.

    O MODELO THEIA DE FAZER NEGÓCIO

    Hoje, por meio das soluções da Theia, uma gestante consegue fazer todo seu pré-natal, o parto e o pós-parto com uma equipe de médicos e especialistas. 

    A femtech provê uma equipe multidisciplinar com obstetra, nutricionista, fisioterapeuta pélvico e especialista pessoal que acompanha a mulher em todos os momentos da gestação, além de um preparador físico, consultora de amamentação e outros profissionais à disposição na plataforma. 

    “A ideia é oferecer tudo que possibilite uma gestação com melhores resultados de saúde e bem-estar”, sintetiza Flavia. 

    “No geral, quando a mulher engravida, a vida dela gira em torno da gestação e ela deixa de ser uma pessoa e passa a ser uma barriga carregando um bebê”, explica. “Aqui a gente quer desafiar justamente isso, para darmos o olhar tão necessário para a mulher.”

    Seja em um aplicativo, em consultas presenciais ou na telemedicina, a ideia é estar ao lado da gestante por todos os instantes que ela precisar. 

    As consultas online revolucionaram a medicina em 2020, quando medidas de isolamento social eram mais restritas, mas as gestantes tiveram seus desafios extras. 

    “Na gestação, pelo menos uma vez por mês você tem que ir ao consultório porque precisa fazer exame físico. A gestante, para um acompanhamento pré-natal adequado, precisa sair de casa”, diz Flavia.

    O mote da Theia é trazer o protagonismo para a mulher na gestação. Flavia e Paula são bem claras em seus desejos: redefinir completamente a experiência da maternidade com o sistema de saúde para o maior número possível de mulheres. 

    Atualmente, a femtech está desenhada para mulheres que pagam pelo acompanhamento pré-natal de forma particular, mas a ideia é alavancar a tecnologia para tornar essa oferta mais acessível. 

    Se isso de fato acontecer, um número cada vez maior de mulheres vai poder sentir o merecido cuidado em um dos momentos mais importantes da vida – o início de tudo.

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