• Como a Biocase pretende ampliar o número de prescritores e estar entre as 3 maiores da cannabis medicinal no país

    O médico Cesar Camara, CEO da Biocase no Brasil
    Adriana Gaz | 1 dez 2021

    O uso da cannabis medicinal está avançando no Brasil. Mesmo que ainda não chegue ao patamar de países como Estados Unidos, Canadá, Argentina, Uruguai ou Portugal, os remédios à base da planta estão cada vez mais acessíveis por aqui.

    Mas esse acesso ainda não chegou aos valores e, principalmente, ao conhecimento de médicos e dentistas, que poderiam já pensar nessa opção para tratar seus pacientes com diversas patologias. 

    Para quebrar o preconceito e o medo que existe entre médicos e pacientes, o laboratório americano Biocase chega ao país com dois focos: oferecer produtos à base de cannabis e investir em educação por meio de pesquisas, programas de qualificação científica e eventos. 

    A meta, além de ampliar a base de profissionais prescritores, é ousada: estar entre as três maiores do mercado em até cinco anos.

    “Mais do que o retorno financeiro, nós desejamos proporcionar qualidade de vida a um número maior de pessoas, e para isso temos como meta atingir a marca de 300 médicos prescritores recorrentes em um ano”, diz o médico urologista Cesar Camara, CEO da Biocase.

    “Isso nos trará um faturamento inicial de US$ 50 mil mês até o final do ano de 2022, além de possibilitar a ampliação do acesso da população ao medicamento.”

    Tanto ele, que é doutor em ciências pela Universidade de São Paulo, como levantamentos feitos por vários órgãos, já enxergam que esse mercado, hoje milionário, em pouco tempo se tornará bilionário. 

    Segundo um estudo do Banco de Montreal, ele chegará a US$ 194 bilhões até 2026 – e isso se o número de países que liberarem o uso medicinal e recreativo da erva não aumentar mais do que o previsto. 

    O mercado legal de cannabis medicinal também é um dos segmentos da economia global que mais crescem no mundo, com taxa de 22%, de acordo com a consultoria ResearchAndMarkets.

    PAÍS ESTÁ ATRASADO NO DEBATE

    O Brasil ainda está bem atrasado no debate e na legislação. Enquanto o cenário se define por aqui, a Biocase corre para estar pronta quando finalmente o mercado abrir. 

    “A sociedade como um todo vai entendendo melhor como funciona. Não vamos colocar nada goela abaixo, até porque temos uma questão de aceitação moral ainda no uso da planta”, explica Cesar.

    Segundo o mais recente relatório produzido pela Kaya Mind, empresa brasileira que trabalha exclusivamente com inteligência de mercado para o setor da cannabis, 6,9 milhões de pacientes potenciais a serem tratados com cannabis.  

    Ao todo, são 439 produtos à base da planta disponíveis para importação no país.

    No mês passado, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) otimizou o processo de avaliação da importação de produtos derivados da cannabis por pessoa física.  

    O órgão observou um aumento de mais de 2.400% em seis anos (média de 400% ao ano), com pedidos que passaram de 896 em 2015 para 19.074 em 2020.

    Até meados de setembro de 2021, já houve 22.028 pedidos de importação de produtos derivados de cannabis por pacientes para fins terapêuticos.

    No começo de novembro, dois novos produtos à base de cannabis foram liberados: os extratos Promediol e Zion Medpharma de 200mg/ml. Outros cinco produtos compostos por canabidiol isolado já foram aprovados pela agência.

    Segundo levantamento da Biocase, as especialidades que mais prescrevem hoje são neurologia, psiquiatria, clínica médica e pediatria. 

    “Os dentistas também estão começando a entender a importância do uso deste medicamento, principalmente no tratamento de dores crônicas. Mas é na psiquiatria que vamos ter um crescimento maior”, conta Camara. 

    Para o médico, a segurança do medicamento à base de cannabis já é mais que comprovada, mas o preconceito e o desconhecimento ainda são entraves na disseminação do uso. 

    “O nível de dependência de remédios tarja preta, como ansiolíticos, por exemplo, é pior”, diz o profissional. 

    “Queremos tirar esse estigma, informar e educar com qualidade e para isso estamos trazendo produtos de qualidade, com um valor que possa facilitar o acesso o máximo possível.”

    EDUCAÇÃO PARA PRESCRITORES

    Um dos maiores interesses da Biocase é democratizar o conhecimento e a informação científica entre os profissionais da saúde. Com isso, esperam que mais pacientes também possam entender melhor o valor da medicina canabinóide. 

    Entre os projetos encabeçados pelo laboratório está a organização do Meca – Medical Expocannabis Brasil, um evento técnico científico realizado em novembro, que reuniu online mais de 500 médicos e dentistas. 

    A proposta foi discutir e apoiar os especialistas na indicação da cannabis medicinal e apresentar novos dados e estudos sobre o uso dos óleos principalmente em patologias, como dores crônicas, ansiedade, distúrbios do sono, Parkinson e câncer. 

    “Precisamos que os profissionais se sintam aptos e seguros na recomendação da planta”, afirma o CEO da Biocase. 

    “Com isso, podemos melhorar o cenário, pois hoje contamos com apenas 2.100 prescritores entre mais de 500 mil médicos no Brasil. A necessidade de formação é urgente.”

    Nos planos da empresa também estão uma pós-graduação sobre o tema, já aprovada pelo Ministério da Educação, parceria com associações de pacientes e ainda cursos voltados para pacientes. 

    “Nosso foco é educar de maneira organizada, consistente e coerente. Queremos desmistificar, mostrar a diferença entre a recreativa, uso adulto e da medicinal”, avalia o médico. 

    “São usos diferentes, existe uma preocupação com a qualidade e quantidade de THC, principalmente.”

    COSMÉTICOS TAMBÉM ESTÃO NA MIRA

    Por enquanto a Biocase importará toda linha de remédios à base de cannabis. Mas construir uma fábrica no Brasil já está nos planos. 

    Em um primeiro momento, pretendem trazer o IFA (Insumo Farmacêutico Ativo) de fora, mas, assim que a fábrica tiver todas as certificações, que são difíceis de conseguir, de acordo com o CEO, a ideia é fabricar por aqui. 

    E isso inclui um espaço qualificado para o cultivo da planta no Brasil. 

    Para isso ainda é necessário aguardar os rumos da PL 399/15, que estava previsto para ser votado na Câmara dos Deputados na segunda quinzena de novembro, mas ainda não foi. 

    O projeto permite que a cannabis seja cultivada apenas por pessoa jurídica, com autorização de órgão governamental e com cota pré-contratada e com finalidade pré-determinada. 

    O PL não autoriza o uso recreativo, permitindo apenas a produção de insumos para fins medicinais e industriais.

    Enquanto tudo isso avança, a empresa já mira em outro mercado que deve se movimentar: o de cosméticos canábicos, febre em todos os lugares onde o uso já está mais avançado e liberado. 

    Tanto que até empresas tradicionais como a Avon já oferecem produtos, como hidratantes para o rosto e corpo, óleo que promete limpar e acalmar, protetor e brilho labial e um elixir para a pele e máscara para nutrição. 

    “A sociedade vai aos poucos entendendo que existe um benefício”, diz o médico. 

    “É uma maratona. Acho que quem se preparar vai estar pronto para usufruir o que está acontecendo no mundo todo.”

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