• Conheça os bastidores da operação de guerra da 3M para produzir máscaras N95, que protegem profissionais de saúde da Covid-19

    Saiba como a empresa, uma das mais inovadoras do mundo, ampliou a capacidade de uma de suas fábricas para atender à demanda – que explodiu do dia para a noite.
    Cláudia de Castro Lima | 10 nov 2020

    O que fazer contra um inimigo invisível que assolou o planeta e ceifou, até agora, 1,26 milhão de vidas? Para a 3M, não havia outra solução a não ser montar uma verdadeira operação de guerra. E foi isso o que a empresa fez para combater o Sars-Cov-2.

    Mais popularmente conhecida por suas marcas que dominam mercados – como os Post-Its, os produtos de limpeza Scotch-Brite, as fitas adesivas Scotch e os curativos Nexcare –, a 3M é também a maior fabricante mundial de máscaras N95.

    Responsável pela proteção de enfermeiros, médicos e outros agentes de saúde contra a Covid-19, as máscaras N95 – ou respiradores N95, como os especialistas preferem que sejam chamados – se ajustam perfeitamente ao rosto e filtram 95% das partículas transportadas pelo ar, inclusive vírus.

    A demanda pelas N95, portanto, cresceu exponencialmente no mundo por causa da pandemia.

    Patricia Soares, gerente de marketing de produto da 3M

    Além de profissionais de saúde, o produto deve, segundo o Ministério da Saúde, ser usado também por pessoas infectadas pelo novo coronavírus e por seus cuidadores. A máscara é feita de uma malha extremamente fina de fibras de polímero sintético, cujos filamentos têm diâmetro de menos de um micrômetro – ou a milésima parte de um milímetro.

    “Os respiradores do tipo peças faciais filtrantes, ou PFF, que muitas vezes são chamados de respiradores descartáveis, estão sujeitos a vários regulamentos ou normas em todo o mundo”, afirma Patricia Soares, gerente de marketing de produto da 3M.

    O N95, segundo a especialista, é um tipo de respirador que atende aos requisitos da norma americana e tem aprovação do NIOSH (National Institute for Occupational Safety and Health, ou Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional) nos Estados Unidos.

    “No caso do Brasil, o equivalente seria os respiradores PFF2, que são testados de acordo com a norma brasileira ABNT/NBR 13.698-2011, assim como o respirador tipo KN95, testados pela norma chinesa GB2626-2006, e outros tipos semelhantes”, afirma.

    De acordo com ela, a descrição de classe mais usada é a eficiência de filtração: ou seja, a capacidade de filtrar partículas específicas em um teste de laboratório controlado.

    “Devido às semelhanças nos requisitos das normas de vários países, as três normas de respiradores – N95, PFF2 e KN95 – têm aproximadamente de 94 a 95% de eficiência de filtração”, afirma.

    “Por isso, desde que promova uma boa vedação ao rosto do usuário, podem ser consideradas funcionalmente semelhantes para o uso contra diversos tipos de partículas dispersas no ar. Dessa forma, a Organização Mundial de Saúde indica essas três classes de maneira equivalente para proteção de profissionais da saúde contra a Covid-19.”

    FÁBRICA DE ITAPETININGA OPERANDO EM TRÊS TURNOS

    A 3M Brasil já fabricava as máscaras N95/PFF2 antes da pandemia. Embora não abra dados de volume de produção local, por estratégia de negócios, ele teve que ser triplicado.

    “No Brasil, para ampliar sua capacidade e atender a demanda em função da Covid-19, a empresa contratou novos funcionários para sua fábrica responsável pela linha de máscaras PFF2”, diz Patricia.

    “Desde então, a fábrica de Itapetininga tem operado 24×7, em três turnos.”

    Como já tinham as máquinas necessárias e não sofreram com a falta de matérias-primas, em cerca de 45 dias já foi possível triplicar a produção de equipamentos de proteção individual. O desfaio foi organizar a logística para a distribuição dos produtos.

    Dentre os 6,5 mil colaboradores da empresa, apenas os que trabalhavam nas fábricas foram mantidos em esquema presencial, e isso com todos os cuidados necessários.

    Metodologias ágeis, que haviam sido implementadas, foram essenciais para a tomada rápida de decisões, mesmo em esquema de trabalho remoto.

    Globalmente, afirma a executiva, a 3M dobrou sua produção de respiradores em todo o mundo para uma taxa de mais de 1,1 bilhão por ano – ou quase 100 milhões de unidades por mês.

    “Houve incremento de produção em suas plantas dos Estados Unidos, Europa, Ásia e América Latina”, afirma.

    Ainda há alta demanda pelos respiradores PFF2 no Brasil e no mundo, e a 3M continua trabalhando para suprir o mercado. Mas e quando a pandemia perder força?

    “A 3M é uma companhia com um amplo portfólio em equipamentos de proteção individual – entre eles, uma linha de soluções de proteção respiratória. Além das máscaras PFF2, a empresa é responsável por máscaras do tipo PFF1 e PFF3, bem como outras linhas de respiradores”, responde Patricia.

    BRIGA MUNDIAL PELOS RESPIRADORES

    O CEO e chairman global da empresa, Mike Roman, afirmou para a rede americana de televisão CNBC que a 3M começou a ampliar sua produção de N95 no fim de janeiro, poucas semanas depois que o novo coronavírus surgiu na China.

    Na primeira metade do ano, 800 milhões de respiradores foram fabricados no mundo todo pela 3M – metade disso para os Estados Unidos. “Estamos fabricando mais respiradores N95 do que nunca e continuaremos a adicionar alguma capacidade à medida que avançamos no fim do ano e no ano que vem”, disse ele para a rede.

    A empresa protagonizou uma disputa mundial pelas N95. Em abril, o presidente dos EUA Donald Trump disse que proibiria que a 3M vendesse suas máscaras para qualquer outro país, exigindo que toda a produção ficasse lá.

    A 3M bateu o pé. Afirmando que a decisão traria “consequências humanitárias”, firmou um acordo e, para suprir o mercado interno, ajudou a importar máscaras chinesas.

    No meio da briga, aqui no país, o então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta anunciou que compraria todo o estoque das subsidiárias da 3M no Brasil para abastecer o mercado interno.

    O maior desafio era a capacidade de produção, especialmente porque grande parte da matéria-prima vem da China. E, com a alta demanda global, os países acabavam disputando os insumos.

    RESULTADOS RECENTES ACIMA DO ESPERADO

    Impulsionado pela forte demanda dos respiradores no mundo todo, o conglomerado divulgou recentemente resultado trimestral acima do esperado pelo mercado americano.

    As vendas da divisão de produtos para cuidado da saúde, que inclui também itens cirúrgicos e para dentistas, saltaram 25,5% no trimestre em relação ao mesmo período de 2019. Elas representaram mais de um quarto das vendas totais da empresa.

    Foi uma recuperação em relação ao trimestre anterior, quando as vendas de produtos para escritórios da 3M diminuíram por causa dos fechamentos das empresas e das medidas de isolamento.

    COMO UM SUTIÃ AJUDOU A INSPIRAR A MÁSCARA N95

    O uso de máscaras de proteção na saúde é antigo. Pinturas da Renascença mostram pessoas cobrindo o nariz com lenços para evitar doenças. Algumas obras trazem coveiros manejando corpos de vítimas da peste bubônica com panos ao redor do rosto – elas acreditavam que doenças como a peste eram provocadas miasmas, gases que emanavam do solo.

    Vem dessa ideia do miasma aquelas máscaras que parecem bicos de pássaros, usadas por médicos nos anos 1600 na Europa. As pontas carregavam incensos – protegendo-se do odor da praga, acreditavam, eles estariam imunes à doença.

    Com o avanço do conhecimento científico e da microbiologia, as primeiras máscaras cirúrgicas – na verdade lenços amarrados no rosto – começaram a ser usadas por médicos em 1897.

    Em 1910, segundo o periódico Fast Company, uma praga altamente mortal atacou a Manchúria, atualmente nordeste da China. Para liderar os esforos de combate, o Império Chinês nomeou o médico Lien-teh Wu, que havia estudado em Cambridge, na Inglaterra.

    Adaptando as máscaras cirúrgicas que havia visto no Ocidente, ele desenvolveu um equipamento mais duro, feito de gaze e algodão, que ficava bem ajustado ao rosto do médico e ainda tinha várias camadas de tecido, para filtrar o ar inalado.

    Na década de 1950, ainda de acordo com o Fast Company, a americana Sara Little Turnbull, uma ex-jornalista de decoração, começou a trabalhar na divisão de embrulhos para presentes da 3M.

    Para fazer fitas rígidas, a companhia havia criado uma uma tecnologia que soprava o polímero derretido em um tecido de fibras minúsculas. Sara achou que aquele material tinha um grande potencial.

    Em 1958, ela fez uma apresentação na 3M explicando as razões por que a empresa deveria apostar nesse ramo de não-tecidos. Para convencer os executivos, apresentou uma centena de ideias de produtos nos quais a tecnologia poderia ser empregada. Assim, começou a estudar o projeto de um sutiã moldado.

    Um acaso foi responsável pela criação das máscaras com o não-tecido. Sara passou os dois anos seguintes em visitas constantes a pacientes enfermos no hospital e pensou que o material da 3M daria uma ótima máscara cirúrgica que parecesse uma bolha – a inspiração era o bojo de um sutiã.

    Uma década mais tarde, o NIOSH criou os protocolos para um “respirador de uso único”. O primeiro respirador N95 de uso único como o conhecemos foi desenvolvido pela 3M e aprovado em 25 de maio de 1972.


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