A telemedicina está deixando de ser sinônimo de consulta por videochamada. Com a evolução das tecnologias digitais, o atendimento remoto passa a incorporar monitoramento de indicadores de saúde, dispositivos conectados, aplicativos, prontuários eletrônicos e compartilhamento de informações em tempo real. A mudança abre espaço para um modelo de cuidado que não termina quando a consulta é encerrada, mas pode continuar por meio do acompanhamento remoto do paciente.
No Brasil, esta transformação já aparece nos números.
Dados do Ministério da Saúde mostram que a telessaúde registrou 2,5 milhões de atendimentos em 2024. Somados aos 1,55 milhão contabilizados entre janeiro e julho de 2025, foram mais de 4 milhões de atendimentos no período.
A expansão também é observada no setor privado. Levantamento da Saúde Digital Brasil em parceria com a Serasa Experian aponta que os atendimentos remotos passaram de cerca de 200 mil em 2020 para mais de 3,1 milhões em 2025. Segundo o painel, 72% das consultas analisadas são resolvidas e finalizadas no ambiente digital.
O avanço tecnológico muda, principalmente, a forma como os dados do paciente podem ser utilizados ao longo da jornada de cuidado. Relógios inteligentes, oxímetros, aparelhos de pressão e outros dispositivos conectados podem produzir informações que, quando clinicamente indicadas e integradas a plataformas adequadas, ajudam a compor um histórico mais amplo do paciente.
Na prática, isso significa que uma consulta pode ser apenas uma das etapas do acompanhamento. Em determinados casos, o profissional pode analisar informações coletadas entre uma consulta e outra, acompanhar a evolução de parâmetros e identificar alterações que indiquem a necessidade de uma nova avaliação. O objetivo não é substituir indiscriminadamente o atendimento presencial, mas utilizar a tecnologia como complemento da assistência.
Esta é uma das frentes que impulsionam a chamada segunda geração da telemedicina. O conceito envolve a combinação entre atendimento remoto, dados clínicos, conectividade e ferramentas de acompanhamento. Para pacientes com doenças crônicas, o monitoramento contínuo pode contribuir para uma visão mais abrangente da evolução do quadro, desde que inserido em protocolos e fluxos assistenciais apropriados.
A saúde digital aproxima pacientes e médicos com mais agilidade, segurança e praticidade, onde a tecnologia funciona como instrumento para ampliar o acesso sem deixar de lado a qualidade do atendimento.
Neste aspecto, o objetivo da telemedicina é atuar no segmento de saúde digital ampliando sua presença em projetos voltados aos mercados público e privado. Entre as possibilidades proporcionadas pelas plataformas digitais está a conexão entre diferentes etapas da assistência, desde o acesso ao médico até o registro das informações e o compartilhamento de exames e documentos.
O movimento acompanha também a digitalização da infraestrutura de saúde brasileira.
O Censo das Unidades Básicas de Saúde divulgado em 2025 mostrou que 97,6% das UBS utilizavam prontuário eletrônico e 94,6% tinham acesso à internet.
Este nível de digitalização cria condições para ampliar a integração entre atendimento presencial e remoto. Outra tendência é a maior diversidade de serviços realizados a distância. No SUS, a telessaúde já contempla desde teleconsultas e telediagnósticos até telemonitoramento e teleinterconsultas. A modalidade também tem sido utilizada para apoiar o acesso a especialistas em regiões onde a oferta presencial é limitada.
O desafio, agora, é fazer a quantidade crescente de dados gerados pelos pacientes se transformar em informação útil para a assistência. Para isso, ganham importância a interoperabilidade entre sistemas, a segurança da informação, a proteção de dados e a definição de protocolos clínicos. A regulamentação brasileira também estabelece que o uso da telemedicina deve respeitar a autonomia médica e que o profissional precisa avaliar se a modalidade é adequada às necessidades de cada paciente.
A inovação deixa de estar apenas na possibilidade de falar com um médico a distância. Ela passa a estar na capacidade de conectar pessoas, dados e profissionais em diferentes momentos do cuidado. Esta mudança representa uma oportunidade de ampliar o acesso à assistência e, ao mesmo tempo, tornar a jornada mais integrada.
Juan Ramos é CEO da healthtech CallMed, advogado pela PUC Minas e pesquisador em Direito Constitucional pelo Núcleo Jurídico de Políticas Públicas (NUJUP)
