• Por que a Roche lançou um desafio para encontrar startups com soluções que facilitam o diagnóstico de doenças raras

    A gerente de inovação da empresa, Laura Detomini, conta sobre o Desafio Plurais, desenvolvido em parceria com o Eretz.bio, incubadora do Hospital Albert Einstein, e diz: "Sabemos que é necessário inovar além da molécula".
    Lucas Baranyi | 20 jan 2021

    Diagnósticos precoces e assertivos são dois dos grandes problemas relacionados a doenças raras no Brasil e no mundo. E 2020, convenhamos, não facilitou nada esse trabalho.

    Com a pandemia do novo coronavírus, causador da Covid-19, muitas clínicas médicas precisaram fechar por meses, e consultas de rotina que poderiam indicar doenças raras ou até mesmo comuns em estágios iniciais precisaram ser postergadas.

    Buscando uma acurácia maior no que diz respeito a esse diagnóstico, a gigante farmacêutica Roche promoveu, a partir de setembro do ano passado e em parceria com a Eretz.bio, incubadora de startups de saúde criada pelo Hospital Israelita Albert Einstein, o Desafio Plurais.

    Com ele, buscava players – pessoas físicas, empresas e startups – que pudessem apresentar soluções para facilitar diagnósticos precoces de doenças raras voltadas para atenção primária e replicáveis em grande escala. 

    “Quanto mais impreciso for um diagnóstico, menor é a chance de que o paciente possa receber o tratamento adequado. Isso impacta não apenas a saúde dele, mas a sustentabilidade do sistema como um todo”, conta Laura Detomini, gerente de inovação da Roche. 

    “Nós temos consciência do quanto nossa iniciativa é desafiadora e ambiciosa. Dessa maneira, buscamos qualquer pessoa, startup ou empresa que tenha uma ideia, solução ou tecnologia que nos ajude a solucionar o desafio de diagnóstico para a assistência primária”, diz ela.

    “A partir desse entendimento e validação de funcionalidade no ecossistema de saúde, temos a intenção de seguir o projeto escalando e fazendo parcerias necessárias para que se torne uma realidade.” 

    PREOCUPAÇÃO CONSTANTE COM INOVAÇÃO 

    A inovação está no DNA da Roche – ela é, por exemplo, a patrocinadora do programa Scale-up Health Tech da Endeavor, que tem como objetivo suportar startups maduras, de alto crescimento e com modelo de negócio sustentável.

    O programa, semestral, oferece capacitações, mentoria com profissionais da rede Endeavor, contato com executivos da Roche, entre outros benefícios – e seleciona scale-ups nas áreas de prevenção e bem-estar, diagnóstico e prescrição, tratamentos intensivos, tratamentos e acompanhamento, plano de saúde, serviço de suporte e digital health. 

    A empresa também está apoiando a plataforma de telemedicina gratuita Tummi Coronavírus, que oferece atendimento médico e psicológico à população com sintomas de Covid-19.

    A startup Tummi iniciou suas atividades em 2017 com um aplicativo de suporte a pacientes oncológicos e, com a pandemia, percebeu que tinha conhecimento e ferramentas que poderiam ajudar no enfrentamento dessa situação – daí surgiu o Tummi Coronavírus.

    A plataforma oferece atendimento gratuito para pacientes com sintomas de Covid-19, realizando triagem por meio de um questionário eletrônico e posterior atendimento por videochamada com médicos voluntários, que orientam sobre a necessidade ou não de uma consulta presencial. A plataforma também conta com suporte psicológico. 

    Até o momento, o projeto já atendeu mais de mil pessoas com suspeita de Covid-19 e ofereceu mais de 700 atendimentos psicológicos. Essa iniciativa amplia o acesso dos pacientes, ao mesmo tempo em que reduz a sobrecarga nos sistemas de saúde e mantém as pessoas seguras em suas casas, minimizando a propagação do vírus. 

    Além do programa da Endeavor e do apoio à Tummi, a Roche já incentivou outras startups do setor, como: 

    • Heart Care, desenvolvedora de um aplicativo de monitoramento de saúde que já tem mais de 26 mil usuários cadastrados
    • HelpBell, focada em monitoramento em tempo real de pacientes que estão usando medicamentos para aprimorar o tratamento e decisões médicas
    • Mindify, inteligência artificial aplicada a protocolos médicos para validar dados clínicos e sugerir possíveis diagnósticos
    • Avicena, aplicação de inteligência artificial em sistemas de saúde para compartilhar dados com pacientes, médicos e gestores
    • Wecancer, aplicativo para registrar sintomas de pacientes oncológicos, permitindo o monitoramento por médicos e envio de alerta aos hospitais.
    Fachada da Roche Brasil

    OS TRÊS PILARES DA INOVAÇÃO NA ROCHE 

    O termo “inovação” pode ter se tornado um curinga (muitas vezes mal utilizado) por diversas companhias – mas, para Laura, a Roche leva o conceito muito a sério. 

    “Além da inovação na ciência, sabemos que é necessário inovar além da molécula”, diz ela.

    “A inovação pode melhorar nossos processos, nosso relacionamento com clientes, o valor agregado das nossas soluções.  Por isso, a ambição da área de inovação é que inovação seja uma forma de trabalhar de todos os funcionários da Roche.”

    Para isso, Laura conta que a empresa conta com uma área catalisadora que treina os colaboradores a trabalharem ca trabalhar com inovação”, comenta. “Hoje, a nossa área trabalha para apoiar projetos em todas as áreas da companhia, com foco em projetos relacionados ao negócio”, diz. 

    “Temos um processo de governança bem estabelecido, que nos permite conhecer e interagir com as iniciativas de inovação em andamento, entender quais são as oportunidades que se cruzam dentro dos projetos inovadores e, assim, contribuir para que todos atinjam os resultados esperados.”

    Segundo Laura, o trabalho da área de inovação da Roche funciona a partir de três frentes:

    1) Inovação aberta, que dedica o esforço da companhia para se conectar com o ecossistema de inovação, especificamente em saúde, e trazer o que há de mais atual no mercado e que tenha a ver com as necessidades nas quais a Roche trabalha. 

    “Dentro dessa frente, nós operamos em dois caminhos: relacionamento com times internos, em que entendemos quais são os desafios latentes para pensarmos juntos em soluções e, também, o caminho contrário, quando olhamos para o que está acontecendo de novo no ecossistema de inovação, estando ou não conectados com os desafios que já conhecemos, para trazer essas tendências para dentro da empresa”, explica Laura. É o caso do Desafios Plurais. 

    2) Autonomia dos times, que direciona e expande conhecimento e expertise para que as áreas da companhia possam desenvolver projetos de uma maneira inovadora e com assertividade.

    “Para nós, inovação é buscar soluções criativas para questões complexas, e essas questões podem estar dentro de um projeto de qualquer frente da companhia”, diz Laura.

    “Nosso compromisso não é estar inserido nesses planos, mas sim instrumentalizar, capacitar e oferecer aos times plataformas de trabalhos para que eles tenham conhecimento e autonomia para trabalhar com metodologia de inovação”, afirma. 

    O papel, portanto, diz ela, é de catalisador e de guardiões. “Fomentamos o uso de metodologia de inovação e garantimos a governança dos processos de inovação na companhia”, explica. E para tornar isso realidade, a Roche conta com um grupo de facilitadores de inovação distribuídos em várias áreas da companhia, que têm um papel fundamental em disseminar a metodologia de inovação entre os times. 

    “Nós também temos ferramentas proprietárias que facilitam a adoção de metodologia de inovação no dia a dia. Por fim, temos um hub de projetos em que todas as iniciativas de inovação, em andamento ou concluídas, são registradas e acompanhadas”, conta Laura.

    3) Cultura de inovação, que é a compreensão e valorização desse conceito dentro da empresa.

    “Neste ano, as duas principais plataformas em que trabalhamos cultura de inovação foram os treinamentos na metodologia de inovação dentro do contexto de transformação da Roche e um programa de encontros com players do ecossistema de inovação – aceleradoras, hubs, startups – com o objetivo de promover conexões e de fomentar conexões dos colaboradores da Roche com esse ecossistema.”

    O QUE É O DESAFIO PLURAIS

    Conseguir o diagnóstico de uma doença rara é uma jornada dolorosa e demorada, que pode levar até sete anos. E obtê-lo não facilita muito o lado do paciente: depois disso, ele em média tem que fazer oito visitas médicas. Até a obtenção do diagnóstico final correto, na média o sujeito recebe outros dois ou três errados. 

    Hoje, cerca de 13 milhões de brasileiros vivem com alguma das 6 a 8 mil doenças raras – para 95% delas ainda não há tratamento, apenas cuidados paliativos e reabilitação. Isso, acredita a Roche, aumenta a necessidade de se obter uma solução de diagnóstico preciso e eficaz para a assistência primária.

    O Desafio Plurais procurava uma solução em diagnóstico precoce de doenças raras voltadas para a atenção primária e que fosse viável para aplicação em grande escala. A ideia é que a solução promova o encaminhamento correto dos pacientes para os especialistas. 

    Algumas das doenças prioritárias no desafio eram esclerose múltipla, hemofilia, neuromielite óptica, atrofia muscular espinhal, fibrose pulmonar idiopática, doenças inflamatórias intestinais (como RDU e Chron) e doenças da retina (DMRI ou EMD). 

    De acordo com a Roche, o Desafio Plurais recebeu mais de 60 propostas inscritas e submetidas ao time para aprovação. O vencedor já foi definido e será anunciado até o fim deste mês.


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