• Como a Philips se transformou em uma empresa 100% dedicada à saúde

    De lâmpadas e batedeiras a sistemas de gestão hospitalar e plataformas que usam IA para integrar informações de pacientes: Patricia Frossard, country manager da empresa no Brasil, explica a trajetória da gigante multinacional.
    Felipe Van Deursen | 11 nov 2020

    Em sua centenária história, a Philips já foi uma pequena fabricante de lâmpadas e um conglomerado que atuou em múltiplas frentes e criou algumas das tecnologias mais emblemáticas do século passado. Nos últimos anos, isso mudou. 

    O foco da gigante holandesa, que já investiu em gravadoras (Polygram) e fundou o time PSV Eindhoven, é um só: inovação em tecnologias na área da saúde. 

    Você pode não ter percebido, mas hoje a Philips é uma senhora healthtech de 129 anos.

    Ao longo da última década, a empresa vendeu suas operações de TV, após perder mercado para concorrentes como LG e Samsung. A marca Philips continua no mercado, mas é fabricada pela TP Vision. 

    A divisão de áudio e vídeo, que também estava deficitária, foi transferida para a japonesa Funai. Até o setor de componentes de iluminação, ícone do conglomerado, acabou vendido, em 2015. 

    “Em 2011, globalmente, a Philips reavaliou o seu posicionamento, levando em consideração os desafios que a população mundial enfrentava”, explica Patricia Frossard, country manager da Philips no Brasil. 

    “Decidimos focar no setor de saúde, seguindo o conceito que chamamos de health continuum – desde estabelecer um estilo de vida saudável e preventivo até a necessidade de diagnósticos e tratamentos precisos, tanto no sistema de saúde quanto em casa.”

    Em janeiro deste ano, o CEO da Philips global, Frans van Houten, que capitaneou essa discreta e revolucionária transição, anunciou que a companhia também pretende se desfazer da área de produtos domésticos, que, no Brasil, é representada pela Walita. 

    Para ele, utensílios como aspiradores de pó ou máquinas de café não são mais um nicho estratégico para essa gigante de 81 mil funcionários espalhados em mais de 100 países. Em 2019, o faturamento da área correspondeu a apenas 12% das vendas totais da Philips, ou 2,3 bilhões de euros. 

    Por outro lado, a área de saúde domina cada vez mais os cofres da empresa, cujo faturamento global foi de 19,4 bilhões de euros em 2019. 

    O setor de diagnósticos e tratamentos deve saltar de 8,5 bilhões de euros, em 2019, para 12,2 bilhões, em 2024, segundo um levantamento da Evaluate, plataforma de dados da indústria farmacêutica. 

    Com os investimentos em setores estratégicos para o futuro da indústria da medicina, como gestão de dados e assistência médica domiciliar, a presença da empresa – que já fabrica tomógrafos, mamógrafos, aparelhos de ressonância magnética e outras máquinas do tipo – tende a crescer ainda mais.

    Não se trata de uma mudança impensada ou até mesmo radical. O consumidor final tende a enxergar na Philips uma fabricante de televisores, aparelhos de som e afins, mas na verdade ela está presente no setor há tempos. 

    SEMPRE COM UM PEZINHO NA SAÚDE

    A Philips nasceu em 1891, quando Frederik Philips, empolgado com os experimentos de seu filho Gerard com iluminação, investiu em uma pequena fábrica em Eindhoven, nos Países Baixos, para produzir lâmpadas incandescentes a baixo custo. 

    A empresa cresceu nos anos seguintes, exportava para vários cantos da Europa e iluminava até o Palácio de Inverno da família real russa. Em 1914, criou seu laboratório de inovação e pesquisa.

    Mas, no mesmo ano, estourou a Primeira Guerra Mundial. Dentre os diversos produtos importados que deixaram de chegar à Holanda, estavam as ampolas de raios X, que vinham da Alemanha. 

    Radiologistas holandeses pediram, então, ajuda aos engenheiros da Philips para contornar a situação. Ao final da guerra, a companhia já fazia os próprios aparelhos de raios X. No Museu Philips, em Eindhoven, há uma dessas máquinas, de 1919, em exibição.

    Ou seja, a Philips já investe em saúde há mais de 100 anos. Mas o que ela tem feito recentemente é novidade. 

    O foco atual se baseia em um tripé: envelhecimento da população mundial, aumento de doenças associadas ao estilo de vida e aumento da classe média em países asiáticos. 

    Serão mais pessoas, mais velhas e com mais acesso a tecnologias para acompanhar a própria saúde. Cuidado preventivo e tratamento domiciliar, amparados cada vez mais pela ciência de dados, são uma tendência na medicina – e algo que a Philips já abraçou.

    A Philips do Brasil se destaca nessa frente. O sistema de gestão hospitalar Tasy EMR (Electronic Medical Record) foi criado em 2012 e é usado em 14 países, como Japão e Austrália. Ele reúne e organiza dados de hospitais e clínicas, integrando pontos de cuidado com pacientes e processos administrativos, o que serve para evitar desperdícios e aumentar a produtividade. 

    Mais de 950 instituições de saúde adotaram a tecnologia. “Sem inovação é impossível transformar o setor de saúde”, diz Patricia. 

    “O Tasy permite a construção de um banco de dados único, qualitativo e integrado, que auxilia gestores, profissionais de saúde, municípios e demais esferas de governo no controle da qualidade do atendimento, custos e tomada de decisões. Com essa solução, é possível ter uma história clínica única para todos os níveis de atendimento.” 

    Com a pandemia, o Tasy ganhou uma novidade, a plataforma PFCS, que funciona como um painel para hospitais gerenciarem pacientes suspeitos, ou confirmados, de terem Covid-19. 

    “A plataforma faz a referência cruzada de pessoas com comorbidades e permite que a instituição identifique recursos disponíveis”, explica a executiva.

    UMA GIGANTE VAI ÀS COMPRAS

    Parte do dinheiro das vendas de divisões e do faturamento anual é investido em novas empresas de saúde e em pesquisa. Em 2018, por exemplo, foram 1,8 bilhão de euros destinados a pesquisa. 

    No ano passado, a Philips adquiriu a Medumo, startup americana que facilita a comunicação entre hospitais e pacientes. Além dela, foram outras sete aquisições, apenas no período de maio de 2018 a agosto de 2019, uma média de uma nova empresa a cada bimestre. 

    Patricia Frossard lembra ainda de outros negócios adquiridos pela Philips recentemente, como os aplicativos Gravidez+ e Bebê+, que servem para pais acompanharem o desenvolvimento de seus filhos.

    “Nós acreditamos também que a inteligência artificial tem o potencial de melhorar a vida das pessoas, no diagnóstico, tratamento e atendimento domiciliar”, diz 

    “Uma das principais oportunidades da IA está na prevenção de doenças, uma vez que nos permitirá coletar e processar informações mais complexas, incluindo nosso genoma, histórico familiar e determinantes sociais e comportamentais”, explica a executiva. 

    “Um exemplo é a plataforma IntelliSpace Precision Medicine, que integra informações em diferentes domínios clínicos, como radiologia, patologia e genômica, e incorpora os principais dados médicos e de pacientes em uma única fonte de dados, para fornecer uma visão clara e intuitiva do quadro do paciente e de seu tratamento.”

    Ferramentas digitais ainda têm um longo caminho na saúde brasileira, já que muitos hospitais continuam usando formulários em papel. Mas a Philips acredita que elas são a melhor forma de se melhorar toda a cadeia. 

    Segundo um levantamento da própria companhia entre profissionais de saúde com menos de 40 anos, 87% acreditam que esses recursos são importantes para se obter melhores resultados para os pacientes. Além disso, 71% dos entrevistados dizem que tecnologias digitais permitem que eles dediquem mais tempo aos pacientes e 79% concordam que elas reduzem seu estresse.

    A Philips já esteve em milhões de lares com seus liquidificadores, batedeiras e barbeadores elétricos. Inventou a fita cassete e criou, em parceria com a Sony, o CD e o DVD. Hoje, está determinada a chegar em 2030 melhorando a qualidade de vida de 2,5 bilhões de pessoas por ano. 

    “A Philips sempre foi uma empresa de saúde”, lembra Patricia. 

    “Nós estamos nos transformando em uma empresa de healthtech. O que nos diferencia agora do período em que tínhamos um amplo portfólio de negócios é que estamos 100% focados na saúde da população”, afirma a executiva.

    “Estamos inovando além do hardware, para oferecer aos nossos clientes combinações integradas de sistemas, dispositivos, softwares, consumíveis e serviços que respondem às necessidades e desafios específicos do setor de saúde.” E tudo começou com uma lâmpada.


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