• A menopausa não é um colapso

    Izabelle Gindri, cofundadora e CEO da bio meds Brasil.
    Izabelle Gindri, cofundadora e CEO da bio meds Brasil.
    Izabelle Gindri | 22 jul 2026

    Por muito tempo, a menopausa foi tratada como um problema a ser escondido. Hoje, mulheres reivindicam informação, qualidade de vida e o direito de viver essa fase sem culpa, sem estigma e sem abrir mão do próprio bem-estar. Ela interrompe uma reunião para ligar o ventilador. Dorme mal há meses. Esquece compromissos que antes administrava sem esforço. Chora por motivos que nem sempre consegue explicar. Ou simplesmente perdeu a paciência para tolerar situações que antes aceitava em silêncio. Durante muito tempo, a resposta para tudo isso foi a mesma: “é a menopausa”.

    A frase, quase sempre dita em tom de brincadeira ou desqualificação, ajudou a transformar uma fase natural da vida feminina em sinônimo de descontrole emocional. Mas a ciência conta uma história bem diferente. 

    A menopausa não é um colapso. É uma transição biológica complexa, marcada por mudanças hormonais que afetam praticamente todos os sistemas do organismo, do cérebro aos ossos, da pele ao coração.

    É difícil separar onde termina o efeito dos hormônios e onde começa a mudança de perspectiva que acompanha essa etapa da vida. Mais do que isso, ela costuma coincidir com um momento em que muitas mulheres também vivem outras transformações, filhos que deixam a casa, pais envelhecendo, auge da carreira profissional, redefinição de relacionamentos e um novo olhar sobre si mesmas.

    A menopausa é oficialmente confirmada após doze meses consecutivos sem menstruar. Antes disso, porém, existe a perimenopausa, fase em que os níveis de estrogênio e progesterona oscilam intensamente. É justamente aí que surgem os sintomas que tantas mulheres descrevem como uma sensação de “não reconhecer mais o próprio corpo”.

    As ondas de calor são apenas a face mais conhecida do problema. Alterações no sono, ansiedade, dificuldade de concentração, redução da libido, ressecamento vaginal, fadiga persistente, ganho de gordura abdominal e oscilações de humor podem aparecer de forma simultânea e comprometer significativamente a qualidade de vida.

    Apesar disso, ainda existe uma tendência cultural de minimizar essas queixas. Muitas mulheres escutam que “isso passa”, “faz parte da idade” ou “é preciso aprender a conviver”. Mas não deveria ser assim.

    Avanços recentes

    Hoje, a terapia de reposição hormonal voltou a ocupar um lugar importante no tratamento dos sintomas da menopausa, depois de anos cercada por medo e desinformação.

    Os números mostram que a conversa sobre menopausa deixou de ser um tema de nicho para se tornar uma questão de saúde pública. 

    Estima-se que mais de 1 bilhão de mulheres no mundo estejam na pós-menopausa, e esse contingente continua crescendo à medida que a expectativa de vida aumenta. 

    Cerca de 75% delas apresentam sintomas vasomotores, como ondas de calor e suores noturnos, e aproximadamente um quarto relata manifestações intensas o suficiente para comprometer o trabalho, o sono, a vida sexual e a saúde mental.

    Depois de duas décadas marcadas pelo receio em relação à terapia hormonal, as principais sociedades médicas internacionais passaram a defender uma abordagem mais individualizada. As recomendações mais recentes da International Menopause Society (IMS) reforçam que a terapia hormonal continua sendo o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores da menopausa e também desempenha papel importante na prevenção da perda óssea em mulheres elegíveis. A indicação, no entanto, deve considerar idade, tempo desde a menopausa, histórico clínico e fatores de risco individuais.

    Quando indicada para mulheres saudáveis, especialmente antes dos 60 anos ou nos primeiros dez anos após a menopausa, a reposição hormonal apresenta benefícios que frequentemente superam os riscos. 

    Ela reduz as ondas de calor, melhora o sono, protege a saúde óssea, ajuda na lubrificação vaginal e pode devolver qualidade de vida a mulheres que convivem diariamente com sintomas incapacitantes.

    Isso não significa que seja uma solução universal. O tratamento precisa ser individualizado. Histórico familiar, doenças pré-existentes, estilo de vida e objetivos da paciente fazem parte da decisão. Em alguns casos, terapias não hormonais também oferecem bons resultados.

    Outro avanço importante está na personalização permitindo que o tratamento seja adaptado às necessidades de cada mulher. Essa mudança de entendimento aconteceu após a reavaliação dos resultados do histórico estudo Women’s Health Initiative (WHI).

    Menopausa ressignificada

    Talvez a maior transformação não esteja nos medicamentos. Está na forma como a menopausa vem sendo ressignificada. Pela primeira vez, uma geração de mulheres se recusa a aceitar que envelhecer signifique desaparecer. Elas seguem ocupando cargos de liderança, empreendendo, redescobrindo a sexualidade, iniciando novos relacionamentos, praticando esportes e reivindicando espaço em uma sociedade que historicamente celebrou apenas a juventude feminina.

    No atual contexto, falar sobre hormônios deixa de ser apenas uma conversa médica. Torna-se uma discussão sobre autonomia, saúde, mercado de trabalho, autoestima e direitos. Porque talvez aquela mulher considerada “difícil” apenas tenha deixado de silenciar desconfortos, de aceitar sobrecargas e de colocar as necessidades de todos acima das suas.

    A menopausa muda os hormônios. Mas também muda prioridades. E isso não deveria ser visto como um problema. Talvez seja justamente o começo de um novo protagonismo.

    Izabelle Gindri é farmacêutica, PhD em engenharia biomédica, cofundadora e CEO da bio meds Brasil.

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