“O Hospital das Clínicas elegeu a saúde digital como estratégia pós-Covid”, afirma presidente do InovaHC

Segundo o radiologista Giovanni Guido Cerri, o Plano de Saúde Digital, financiado pelo governo britânico, vai trazer mais escala ao atendimento do maior complexo hospitalar da América Latina, melhorando o acesso a pacientes e reduzindo a desigualdade
Cláudia de Castro Lima | 13 maio 2021

Ele é professor titular de Radiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, presidente do Conselho do Instituto de Radiologia (InRad) e do Comitê Excutivo de Inovação (InovaHC) do Hospital das Clínicas, responsável pelo serviço de Diagnóstico por Imagem do Hospital Sírio-Libanês, vice-presidente do Instituto Coalizão Saúde e membro do Fórum Nacional de Saúde do Conselho Nacional de Justiça.

Se você, como eu, precisou recuperar o fôlego, saiba que o radiologista Giovanni Guido Cerri – que, aliás, também é membro titular e da diretoria da Academia Nacional de Medicina e da Academia Paulista de Medicina e, entre outras coisas, foi duas vezes diretor da Faculdade de Medicina da USP e secretário de Estado da Saúde de São Paulo entre 2011 a 2013 – está satisfeitíssimo com sua carga de trabalho. Tanto que reduzi-la nem passa por sua cabeça.

“Acho que ter o dia cheio de atividades é a melhor forma de manter o cérebro estimulado”, ele diz.

“E conseguir preencher o dia com atividades desafiadoras e interessantes me faz chegar no fim dele contente, com uma sensação de que foi proveitoso.”

Como um dos idealizadores do InovaHC, que, na prática, é o núcleo de inovação do maior complexo hospitalar da América Latina, ele anunciou há alguns dias uma baita novidade: o Plano de Saúde Digital do Hospital das Clínicas.

Em parceria com o governo britânico, a iniciativa faz parte do Better Health Programme, programa de cooperação em saúde do Reino Unido com o Brasil, e pretende desenvolver soluções mais eficazes de atendimento e acompanhamento dos pacientes do HC – e que possam ser implementadas em toda a rede do Sistema Único de Saúde no país.

Com duração de dois anos, o projeto tem três pontos de atuação: melhorar o atendimento na atenção primária, levar as ferramentas digitais para todos os níveis de atendimento na rede de saúde e capacitar profissionais do sistema público e se adaptar às diferentes realidades do país.

Uma das metas é que 40% dos atendimentos sejam feitos de forma remota: da marcação de consultas ao acompanhamento de pacientes crônicos. Outra finalidade é implantar o piloto do programa de atenção primária remota em dez municípios.

O projeto integra todos os institutos que formam o Hospital das Clínicas e será conduzido por um comitê gestor formado por Giovanni, Carlos Carvalho (chefe da pneumologia do Instituto do Coração), Eurípedes Miguel (chefe titular do Departamento de Psiquiatria) e Fabio Jatene (vice-presidente do Conselho Diretor do Instituto do Coração).

“Acreditamos que o programa vai causar um grande impacto e ajudar a melhorar a qualidade de saúde oferecida, permitindo inclusão”, afirma o presidente do InovaHC.

Abaixo, você pode acompanhar os principais trechos da entrevista que ele deu a Future Health para falar deste plano e de uma série de outras coisas, como o ecossistema de inovação brasileiro (que ele acredita que vai atrair cada vez mais investimentos), a importância da parceria com o setor privado (“sem ela não há inovação”) e o espírito empreendedor do estudante de medicina (“30% deles não querem ser médicos, e sim ter uma startup”), entre vários outros.

Sobre estar 27 anos inovando à frente do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas
“A radiologia é muito conectada à tecnologia. E a medicina evoluiu muito nas últimas três décadas baseada em incorporação tecnológica. A radiologia sempre foi um pouco a vanguarda disso e uma das causas de o ser humano viver mais e com melhor qualidade de vida hoje. Nossa mentalidade sempre foi ligada a isso. Por exemplo, na questão da tão discutida telemedicina, que virou realidade durante a pandemia: nós fazemos telerradiologia no InRad há mais de uma década, assim como isso acontece há muito tempo em vários hospitais. O radiologista está acostumado a olhar para o futuro vendo quais são as novas oportunidades tecnológicas que ele pode incorporar. Por isso, para nós, essa questão da inovação sempre teve a ver com criar novas alternativas para que a saúde seja mais ampla e para que as desigualdades sejam reduzidas.”

Sobre a criação do InovaHC, o núcleo de inovação do HC
“É até por causa dessa ligação da inovação com a radiologia que o InovaHC surge dentro do InRad. Na época, o presidente mundial da GE, Jeff Immelt, fez uma doação importante para incentivar a pesquisa de ponta dentro do InRad. E, com esse recurso, criamos o núcleo. Na época, o InovaInCor, por exemplo, já existia.

O InovaHC virou então esse grande guarda-chuva, um ecossistema de inovação envolvendo todos os institutos do HC.

Como se sabe, o maior hospital da América Latina tem vários institutos, como o de Pediatria, de Psiquiatria, do Câncer etc. Esse ecossistema foi criado para inicialmente impulsionar a inovação a partir dos nossos colaboradores, os alunos da faculdade de Medicina da USP, e o abrimos para o público externo. Hoje, temos uma parceria com a Distrito [desde 2019] e criamos um campo favorável para desenvolvimento e aceleração de startups. Temos parcerias também com o IdeiaGov, do governo de São Paulo, e com o Ministério da Ciência e Tecnologia. Buscamos também que os financiadores estejam perto do nosso ecossistema porque a ideia realmente é impulsionar. A inovação gera riqueza e o Brasil precisa disso. É preciso gerar riqueza para poder mudar nosso patamar de desenvolvimento.”

Sobre como a inovação está ajudando no combate à pandemia
“A inovação foi importantíssima no ano passado e está sendo este ano para ajudar em algumas iniciativas de combate à Covid-19. Cito um exemplo de uma plataforma de inteligência artificial que desenvolvemos dentro do InRad, chamada RadVid19. Disponibilizamos nela, em apenas um mês de pandemia, um algoritmo que permite o diagnóstico de um caso de comprometimento pulmonar de Covid por meio de tomografias computadorizadas.

Em poucos minutos, médicos do país inteiro – e hoje temos 60 hospitais conectados – encaminham sua tomografia para essa plataforma e o algoritmo diz se é um caso de suspeita de Covid e também estabelece a extensão da doença.

Agora, com mais de um ano de pandemia, o diagnóstico se tornou mais fácil, as pessoas já se aculturaram ao quadro radiológico. Mas, no começo, isso foi muito importante. Em vários centros do país não tinha gente treinada para fazer o diagnóstico. E a plataforma ajudou a mudar a evolução do paciente porque ela estabelece o diagnóstico em poucos minutos, o que possibilita que o tratamento inicie logo. Começamos com algoritmos importados, da chinesa Huawei e da europeia Siemens. Depois, em parceria com o IdeiaGov, abrimos uma chamada para startups nacionais. Agora, temos algoritmos nacionais – que, na minha opinião, funcionam melhor porque são customizados à nossa realidade.”

Sobre o “legado Covid”
“Essa plataforma teve ainda outra implicação: nos ensinou a desenvolver algoritmos para outras doenças. Hoje, temos um laboratório de inteligência artificial em parceria com a Siemens, onde estamos desenvolvendo algoritmos para câncer de mama, para nódulos pulmonares e temos um trabalho na área de tumores cervicais.

Estamos criando um grande polo de desenvolvimento de algoritmos para a utilização da inteligência artificial em medicina – não mais apenas Covid, mas nas várias áreas da medicina.

E tivemos várias outras experiências interessantes. Por exemplo: introduzimos, em um projeto em conjunto com a Escola Politécnica da USP, robôs para atender pacientes com Covid. Eles ajudavam na limpeza: retiravam o lixo, que é material contaminado, evitando que os nossos funcionários se expusessem desnecessariamente. Foi também uma inovação. Houve ainda o projeto de TeleUTI, do professor Carlos Carvalho, no qual ele, a partir da Unidade de Terapia Intensiva do Incor, supervisiona várias UTIs no estado de São Paulo capacitando os médicos. Observamos ao longo da pandemia a diferença de mortalidade de UTI para UTI, e ela varia três vezes – isso por falta de capacitação profissional. Então temos que fazer um esforço, hoje, através de instrumentos de tele-educação para poder capacitar profissionais no Brasil inteiro. Tudo isso é um legado.”

Sobre a mais recente novidade no HC, o Plano de Saúde Digital
“A saúde digital foi impulsionada durante a Covid por causa da necessidade de pacientes fazerem consulta à distância, de não poderem vir ao hospital, não conseguirem atendimento. Mas eles precisavam ser atendidos, então a telemedicina avançou muito. E, agora, estamos construindo um grande programa de saúde digital para transformar o atendimento do Hospital das Clínicas através do InovaHC em parceria com o governo britânico. A ideia é redesenhar o atendimento do Hospital das Clínicas de forma que possa ser modelo para o Brasil inteiro de como utilizar a saúde digital para atender, monitorar e educar pessoas à distância.

O Hospital das Clínicas elegeu a saúde digital como estratégia pós-Covid.

Com a saúde digital, podemos atender pacientes à distância com qualidade. E isso permite um acesso melhor para os que não conseguiriam vir ao hospital ou que estão em locais distantes. E, utilizando o IoT, é possível não só atender como monitorar esses pacientes também, medir a pressão e a glicemia e fazer uma série de controles, principalmente de pacientes que têm câncer ou doenças crônicas. Quando se avalia o grau de satisfação dos pacientes, eles são sempre muito altos. Com isso, trazemos para o hospital os pacientes que realmente precisam de um atendimento presencial ou de uma urgência.

Ao mesmo tempo, uma coisa importantíssima que a saúde digital traz é a redução do custo.

Além dessa questão da teleconsulta, vamos utilizar a saúde digital para capacitar profissionais no Brasil inteiro. A escala é muito maior. Acreditamos que o programa vai causar um grande impacto e ajudar a melhorar a qualidade de saúde oferecida, permitindo inclusão. O projeto foi construído através de um financiamento do governo britânico, que foi o inspirador do Sistema Único de Saúde com seu NHS [National Health Service, ou Serviço Nacional de Saúde]. O governo financia projetos em países que se inspiraram no seu modelo de saúde, focado no atendimento primário.”

Sobre como a cultura de inovação se dá no HC e na USP
“A cultura da inovação é justamente uma cultura aberta. A inovação tem que olhar para fora. O complexo do Hospital das Clínicas sempre foi muito baseado em profissionais da saúde. E nós entendemos que, para fazer inovação, era importante interagir com outras profissões também. Como, por exemplo, o engenheiro. Porque o médico pode ter a ideia, mas quem a constrói é o engenheiro, né? E assim também funciona com o economista, o farmacêutico e tantos outros profissionais.

Quanto mais includente for a inovação, trazendo profissionais das outras áreas, mais chances os projetos terão sucesso.

Passamos a trabalhar com professores da Escola Politécnica, nossos alunos interagiram com alunos da engenharia e as ideias foram surgindo. E, hoje, temos muitos projetos em parceria. O projeto de rastreabilidade de medicamentos da Anvisa, por exemplo, foi desenvolvido no InovaHC numa parceria com a Escola Politécnica. E é muito importante o paciente ter a segurança de saber que o medicamento foi rastreado desde a produção na fábrica até a hora que chega nele. A inovação aberta é assim: includente, discutindo projetos em conjunto é que acaba trazendo realmente soluções.”

Sobre o espírito empreendedor dos alunos de Medicina
“Hoje, 30% dos alunos da Faculdade de Medicina da USP querem ser empreendedores, abrir uma startup. Muitos não pensam em ser médicos convencionais, um clínico, um cirurgião. Eles têm essa visão do empreendedorismo, que é importantíssimo para o país. Alunos nossos criaram a Hackmed, um hackathon de saúde que ajuda a estimular o empreendedorismo entre os jovens. Eu realmente acredito que a inovação vem muito do jovem, de uma nova cultura que nós temos que criar neste país – e que felizmente está caminhando. Evoluímos muito na última década e o Brasil precisa disso, de soluções customizadas. Nosso sistema de saúde tem um déficit crônico de recursos. Quanto menos a gente depender de soluções importadas e caras e quanto mais puder desenvolver as nossas soluções, melhor para o sistema de saúde como um todo.”

Sobre seu interesse pessoal por inovação
“Temos que nos reinventar de tempos em tempos. Acabei virando professor titular de radiologia na Faculdade de Medicina muito cedo. Depois, fui diretor da Faculdade de Medicina duas vezes. Fui secretário Estadual da Saúde, certamente o maior desafio que tive na vida. Depois pensei que precisava ter um novo desafio. E então, justamente a partir daquela proposta de desenvolver ideias inovadoras com recursos que recebi do Jeff Immelt, pensamos em criar um polo de inovação aberta dentro do HC. E pensamos até de maneira modesta – mas, de repente, isso se tornou uma grande explosão.

Percebemos que existia um grande número de empreendedores dentro da instituição e que, pela tradição e força que o nome HC tem, o InovaHC acabou atraindo também empreendedores de fora da instituição.

Hoje, somos um dos maiores polos de inovação de saúde do país. Quando então pensei em como me reinventaria, encontrei essa oportunidade de poder fazer algo diferente dentro do complexo Hospital das Clínicas. A missão é oferecer entregas que possam fazer diferença na saúde. A criação de tecnologias nacionais pode ter muito impacto na relação custo-benefício, melhorando o acesso e reduzindo o maior problema do país: a desigualdade. Temos que reduzir a desigualdade. Na saúde, ela se reflete de forma gigantesca. Vemos como os pacientes têm um resultado diferente dependendo de onde se tratam. E a saúde digital nos dá uma escala muito maior. Nossa ação passa, portanto, a ter uma outra dimensão.”

Sobre o ecossistema de inovação brasileiro
“A inovação teve muito impulso. Muitas fintechs, por exemplo, tiveram sucesso recentemente. E eu diria que agora é o momento da inovação na saúde. O mundo percebeu como saúde é importante. O problema sanitário que tivemos não poupou ninguém: ricos ou pobres. Aliás, os países ricos foram muito impactados. Esse, portanto, é um grande mercado, é o mercado que mais cresce.

E investir em startups da saúde pode não apenas representar um importante retorno financeiro: pode criar também soluções de grande escalabilidade.

Soluções que não sejam restritas a um universo local, mas que possam ultrapassar fronteiras. Existe, portanto, muito interesse em investir nelas. Aliás, grande parte dos investimentos hoje em inovação estão na saúde. Infelizmente isso está acontecendo nesse contexto, mas temos que aproveitar o momento e realmente destacar a importância que a saúde tem para todo cidadão. Não tenho dúvida: o setor de saúde vai ser cada vez mais rico para dar retorno para o investidor e para criar produtos que tenham realmente valor para o paciente.”

Sobre a importância das parcerias com a indústria
“Inovação só se faz com parceria com o setor privado. Não adianta querer construir inovação apenas dentro da universidade e do setor público. Para sair de dentro de uma instituição pública como é a Universidade de São Paulo, como é o HC, a inovação tem que ser feita em parceria com o setor privado.

Por isso nós buscamos parcerias com todo o setor privado: podem ser grandes multinacionais, podem ser pequenas indústrias, podem ser pequenos empreendedores que conseguem financiamentos privados.

É preciso fazer a ponte. E esse é um pouco o papel também do InovaHC: fazer a ponte do empreendedor com o setor privado, do empreendedor com o investidor. Tem que trazer o setor privado para próximo do empreendedor, e os projetos que forem realmente viáveis têm que ser estimulados pelo setor privado. O produto não se concretiza dentro do HC: ele é testado dentro do HC. Se for efetivo, tem grande chance de dar certo, mas então ele tem que ir para o mercado, né? Por isso que essas parcerias são fundamentais para sermos vencedores nessa área de inovação.”

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