• “As alergias aumentam de forma absurda. Em breve, metade das pessoas vai ter uma”, diz imunologista Fábio Morato Castro

    O imunologista e alergologista Fábio Morato Castro
    Pâmela Carbonari | 24 nov 2021

    Alergias, asma, reações a medicamentos e imunoterapia, além de sala de aula, laboratório, futebol, jazz e gatos, fazem parte da rotina do alergista e imunologista Fábio Fernandes Morato Castro – sim, ele é um alergista que cedeu à pressão dos filhos e tem gato.

    Sua fala tranquila contrasta com a intensidade do seu dia a dia. Professor “dr.”, com a sigla que lhe cabe pelo doutorado e pós-doutorado em Alergia e Imunologia pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha, Fábio leciona na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e é supervisor do Serviço de Imunologia Clínica e Alergia do Hospital das Clínicas de São Paulo.

    Não é só. Ele também é diretor da clínica paulistana Croce, diretor do Instituto de Medicina Avançada (IMA Brasil), pesquisador e coordenador da área de Alergia do Instituto de Investigação em Imunologia (iii-INCT) e coordenador do Grupo de Estudos de Novos Alérgenos Regionais (Genar). 

    Nesta entrevista a Future Health, ele falou sobre vacinação, novas tecnologias no combate a alergias, sua paixão pela docência e a necessidade constante de ouvir o paciente. Confira:

    O que fez o senhor enveredar para área de alergologia?
    Eu nunca pensei em outra coisa além de medicina, mas não sabia o que ia fazer exatamente. Durante a faculdade, passei por várias vontades. Pensei em ser cirurgião plástico, depois queria fazer psiquiatria infantil, aí acabei fazendo residência em pediatria e depois fui para clínica geral. 

    Mas, durante a pediatria, comecei a gostar muito da alergia. 

    Não estava totalmente satisfeito com a pediatria e tive um contato com alergia e imunologia e gostei. Minha vida mudou a partir disso e eu segui fazendo minha carreira em imunologia clínica. Hoje eu sou professor associado, livre docente da disciplina de imunologia clínica e alergia da USP e sou supervisor do serviço de imunologia Clínica do Hospital das Clínicas. E eu adoro.

    E o interesse pela sala de aula?
    A minha primeira aula foi um estresse, mas adorei aquela adrenalina toda. Aula em congresso, né? Eu lembro que ia apresentar uma coisa simples, achei que não ia ter ninguém e de repente a sala começou a encher. Ave Maria, foi tenso. A adrenalina jorrava e aquilo me viciou. Eu adoro dar aula. Sou meio tímido, mas quando estou lá em cima viro outro. É um outro estado, é estranho, eu gosto muito.

    Como foi esse primeiro contato com a alergologia?
    Foi a partir do professor Júlio Croce. Trabalhei com ele por muitos anos. Ele me adotou. E foi um pai profissional. A gente conversava muito, ele era muito gente boa, inteligente, inovou em várias coisas na área de alergia. E isso foi me entusiasmando até eu entrar de cabeça. Tanto que o cargo que eu tenho hoje na USP era o cargo que ele tinha na época. 

    Eu achei tudo muito interessante, porque a alergia é meio de investigação, e eu gostei muito disso. 

    Nada melhor do que viver do que a gente gosta, né? Também fui presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, passei por todos os cargos lá. Foi tenso, mas muito legal. Esse momento e meu doutorado na Alemanha foram fases intensas da minha carreira.

    Em que sentido?
    Todo mundo ia para os Estados Unidos, não sei por que eu cismei de ir para a Alemanha. Minha esposa é endócrino e professora da Escola Paulista de Medicina [Unifesp]. Na época a gente tinha um filho pequeno, e achamos que a bolsa alemã seria melhor para a estrutura da família. E fomos, mas não foi fácil. A língua, a imunologia pesada, a universidade que tinha 600 anos e que era mais antiga que o Brasil, a gente tinha que se dividir em 10 pelo filho… 

    Nunca imaginei que fosse possível cansar de tanto pensar. 

    Eu achava que sabia falar alemão e quando cheguei ao laboratório de imunologia não entendi uma palavra do que eles falavam. Uma vez uma paciente me disse que a vida é muito curta para aprender a falar alemão. Foi uma experiência que até hoje rende frutos profissionalmente. Mas os melhores momentos foram quando a gente foi e quando a gente voltou.

    Nunca na história recente se falou tanto sobre imunidade quanto nesta pandemia. O senhor acha que este período foi, de alguma forma, benéfico para conhecermos mais sobre capacidade de defesa do nosso corpo?
    Infelizmente evoluímos sempre em momentos de crise. Em tempos de guerra, por exemplo, a medicina evolui muito. Existem dois momentos muito importantes para a alergia e imunologia. O primeiro foi a Aids, que deu uma levantada absurda no estudo de imunologia no mundo. Foi muito difícil, mas fantástico do ponto de vista de crescimento da área. E o segundo momento é agora. 

    Vou te dar um exemplo, se você pesquisar por artigos científicos sobre Covid no Pubmed vão aparecer mais de 177 mil registros, isso em um ano e meio. 

    Nunca existiu isso antes, é o mundo todo estudando sobre tudo. Nos últimos 20 anos o mundo evoluiu de forma em progressão geométrica e a medicina também. Então, se você me perguntar como vai ser o futuro, eu consigo falar sobre os próximos cinco ou dez anos, depois não se sabe, porque é uma PG [progressão geométrica].

    E o senhor notou isso no seu consultório?
    Pra você ter uma ideia, não morre mais ninguém de Aids. Foi uma evolução rápida de diagnóstico, tratamento, tudo. E com a Covid também. As pessoas reclamam que as vacinas contra o coronavírus foram muito rápidas. Mas é isso o que acontece quando se injeta dinheiro, se investe em pesquisa e tiram as burocracias. A rapidez deveria ser normal. Demora muito por causa das burocracias, da falta de dinheiro, de pesquisa e de interesse.

    Como o senhor vê a aposta massiva em artifícios sem comprovação científica para suposta melhora da imunidade neste período de pandemia?
    Vou destacar três coisas importantes. Primeiro, eu nunca tinha visto o Hospital das Clínicas inteiro voltado para uma doença só. Ainda tem gente que tem coragem de falar que não era um problema, com 700 leitos voltados para uma doença. Nunca tinha visto nada igual em todos os anos que estou lá. 

    Segundo, nunca vi uma doença ter 300 vacinas sendo desenvolvidas ao mesmo tempo, 300 estratégias diferentes de vacina. 

    E terceiro, a comunicação pela internet é fantástica, mas ela tem os dois lados, né? Tem o lado bom e o lado ruim. Você tem informações ruins circulando e informações boas também. Acho que tudo isso vai ser uma questão de adaptação para o futuro. Até brinco que gostaria de escrever um livro sobre como seria a Segunda Guerra Mundial se houvesse internet. O Churchill mandaria um WhastApp pro Hitler: “Estou invadindo a Normandia”?. Não teria guerra.

    Como o senhor avalia o comportamento antivacinação e principalmente o fenômeno dos “sommeliers de vacina” que vimos crescer nos últimos meses?
    Ninguém fez isso com outras vacinas. Olha que já tivemos vacinas que não eram tão boas para outras doenças. É interessante que parece que agora não existe outra doença, só Covid. Ninguém nunca se preocupou com isso [vacina]. Agora temos a informação certa, a informação errada, as pessoas ficam em dúvida, não sabem no que acreditar. É muito difícil. 

    E em relação às pessoas que não se vacinam pela reação, é claro que alguém vai ter uma reação. 

    Não dá pra pensar em vacina como uma pessoa só, tem que pensar no coletivo. São milhões de pessoas envolvidas, é estatística. Alguns vão ter reações leves, outros graves, infelizmente. Com todas as vacinas é assim. Temos que pensar como custo-benefício, e é um benefício muito grande para a população. “Ah, eu tenho liberdade para não me vacinar”. E a liberdade do outro? E o filho que está na escola? E a pessoa que tem uma imunodeficiência? A gente não sabe de tudo, mas essas informações desencontradas matam.

    Na última década, ficou cada vez mais frequente ouvirmos sobre o aumento da incidência de alergias. Existe de fato um crescimento na quantidade de casos ou o que cresceu foram os diagnósticos e a tecnologia diagnóstica?
    Não tenho a menor dúvida de que, se não fosse a Covid, a alergia seria a doença do século. Ela tem aumentado de forma absurda, em particular as alimentares. Existem várias teorias, mas nenhuma consegue explicar totalmente. Uma delas é a teoria da civilização, que defende que estamos levando uma vida mais urbana, sem contato com os animais, com a natureza, uma vida mais limpa. 

    A segunda teoria é a do excesso de medicamentos antibióticos de amplo espectro, acabando com a flora intestinal. 

    Terceira, a do grande consumo de alimentos industrializados. Junte-se a isso o fato de que cerca de 70 a 80% dos partos são cesáreas. Então você não tem mais a contaminação pela vagina, que ajudaria na formação do microbioma. São diversas razões que podem estar causando isso. Inclusive doenças novas.

    Como quais?
    Existe uma doença chamada esofagite eosinofílica que está muito relacionada com alergia. Ninguém a conhecia e de repente começou a aparecer. Nós até criamos um ambulatório específico para ela que recebe um monte de gente. Não tem um dia em que não apareçam pessoas com alergia alimentar e, o que era muito raro, alergia a múltiplos alimentos. 

    Nós fizemos a identificação de uma nova alergia, a alergia à mandioca. 

    O primeiro caso de anafilaxia à mandioca aconteceu no início dos anos 2000, hoje tem um monte. A pergunta é: há quantos anos a gente come mandioca e por que agora começamos a ter alergia? Em breve, 50% da população ou mais vai ter algum tipo de alergia.

    A maioria alimentar?
    Alergia alimentar é uma das que teve o maior aumento, mas durante a pandemia o que mais vimos chegar ao consultório foi rinite alérgica – e não tem nada a ver com o vírus. É que as pessoas foram para dentro de casa, ficaram em contato com ácaro do cachorrinho, do gatinho, com os alérgenos do ambiente. Entre 30% e 40% da população têm rinite.

    Ainda falando de alergias alimentares, leite e glúten são os principais vilões do seu consultório?
    Sempre brinco que leite, glúten e os maridos são os três culpados por quase tudo. O glúten, principalmente, é um pouco de exagero. A pessoa que faz uma dieta simples tira o glúten e diz que melhorou. Claro, junto com o glúten tirou uma porção de alimentos industrializados. Foi mesmo tirar o glúten que fez bem? Claro que existem intolerâncias e alergias sérias ao glúten e ao leite, mas isso exige um diagnóstico correto. 

    Algumas correntes defendem tirar grandes grupos de alimentos, muita gente chega a ficar desnutrida. 

    Não é por aí. É preciso fazer um diagnóstico correto para identificar se é intolerância, alergia, alergia grave e aí decidir a abordagem. E há também a evolução do microbioma. A vida extremamente urbanizada está acabando com uma parte da proteção do sistema imunológico, infelizmente. Por outro lado, não estamos morrendo mais aos 40 anos. E esse salto é recente. Os antibióticos são recentes. Todas as crianças tinham verminoses, hoje esse não é mais um problema.

    Além do futebol, o saxofone é uma paixão – mas mais recente

    Pelo que deu pra ver, pela câmera do seu computador, o senhor é um alergista que tem gato.
    Eu não teria, nunca quis. Minhas filhas é que têm. Mas os gatos me adoram. Esse gato vem pra cima de mim e acaba com o meu sossego. A gente acaba gostando, não tem jeito.

    Bom, deixemos os gatos em paz. Quais tratamentos o senhor considera promissores hoje?
    Alergia molecular é legal, porque você analisa ao que cada pessoa é sensível. E aí o diagnóstico e o tratamento são diferentes. Em 1975, três pesquisadores criaram uma técnica de produção de anticorpos e ganharam o prêmio Nobel por isso em 1985. Quando estava na Alemanha, cheguei a trabalhar com essa técnica. 

    Hoje, os anticorpos monoclonais, chamados de imunobiológicos, estão mudando a medicina em todas as áreas. 

    Na alergia, nós temos pelo menos cinco diferentes que são fantásticos. Eles vão no alvo do sistema imunológico. Se produz um anticorpo contra aquilo. É incrível, isso mudou e vai continuar mudando a medicina. Muitos remédios vão ser criados a partir dessa estratégia terapêutica. Nossa clínica é referência no uso dessa técnica. São 10 alergologistas comigo e investimos muito em imunobiológicos, em aplicações desses medicamentos.

    O senhor poderia dar um exemplo prático dessa técnica?
    Na dermatite atópica tem uma célula muito importante que se chama eosinófilo, que é uma célula inflamatória da alergia. Então esse medicamento, esse anticorpo, inibe o que estimula o eosinófilo. Como são medicamentos ainda muito caros, usamos apenas em doenças mais graves, mas poderia ser usado para a rinite, por exemplo. Como o conhecimento dos mecanismos da imunologia está evoluindo, é possível saber o que causa cada coisa e atuar contra, lá dentro do sistema imunológico. É legal demais.

    O que o senhor espera das novas tecnologias na sua área?
    Estamos conseguindo fazer o diagnóstico de doenças raras que antes passavam batidas, como um grupo de doenças autoinflamatórias que são raras e graves. Eu acho que a partir do conhecimento do poder das bactérias, do microbioma, vamos conseguir tratar doenças muito específicas. Vai ser uma coisa de rápida evolução.

    Nossos avós talvez não imaginassem a quantidade de alergias e intolerâncias alimentares que vivemos hoje. É possível prospectar que tipo de desafios teremos no futuro? 
    As alergias vão continuar aumentando muito, o porquê ainda não temos certeza. E é claro que tem o fator genético também. Mais gerações com a mesma doença. Por exemplo, no começo da minha carreira, não havia nenhum colega de trabalho que tivesse filhos com alergia alimentar, hoje são vários. Ainda estamos aprendendo, tentando entender por que isso está acontecendo e quais caminhos vamos seguir. Mas o conhecimento traz a solução, foi isso que aconteceu com a Covid.

    Que notícia o senhor gostaria de ler sobre sua especialidade no jornal amanhã?
    O professor Jorge Kalil da USP tem um grupo que está desenvolvendo a vacina em spray nasal. Seria legal ler que está funcionando. Também gostaria que um medicamento para reações anafiláticas fosse aprovado no Brasil. No mundo todo, as pessoas que têm anafilaxia usam adrenalina autoinjetável, mas nós não temos. As pessoas quase morrem, são obrigadas a importar e custa caro. Eu já fiz reuniões com a Anvisa e a indústria farmacêutica e não conseguimos trazer para o Brasil por falta de interesse. 

    Acessibilidade dos monoclonais também seria uma grande notícia. 

    Gostaria que as pessoas tivessem maior acessibilidade à saúde como um todo e que menos verba fosse desviada, principalmente na saúde. Ainda acho que o segredo não está na saúde, está no investimento na educação, que consequentemente vai atingir a saúde.

    O senhor contou sobre o seu primeiro contato com a alergologia e o seu rosto se iluminou. Fora do consultório o que o move, o que provoca essa reação?
    Sou fanático por jogar futebol. Se eu puder, jogo três ou quatro vezes por semana. É algo que me dá um prazer fora do normal. Recentemente tive fraturas jogando futebol e todo mundo me diz pra parar, mas eu não consigo. Você vai ficando velho e a mente pensa uma coisa, enquanto o corpo faz outra. Mas eu adoro. Sou palmeirense, mas o que eu gosto mesmo é de jogar e é uma das poucas coisas em que não sou humilde, acho que sempre joguei bem. Já até troquei voo internacional para chegar a tempo de jogar, eu adoro. 

    E outra coisa que foi um ótimo escape na pandemia foi o saxofone. Esse é um hobby mesmo. 

    Não sou tão bom quanto no futebol, mas passo horas tocando. Comecei depois de adulto e foi a primeira vez em que eu, que não sou nada metódico, me envolvi tanto para aprender. Não deixava passar um dia sem tocar, fui aprendendo sozinho. Até que chegou a pandemia e foi um alívio ter o sax, porque não podia jogar futebol. Às vezes toco no quintal de casa e os vizinhos pedem música, é muito legal.

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