• Aplicativo IVI usa inteligência artificial para cuidar da saúde mental dos usuários 

    Carolina Dassie fundadora CEO Hisnek
    Maria Carolina Dassie Afonso, fundadora e CEO da Hisnek.
    Gabriela Monteiro | 18 jul 2022

    Um estudo da Oracle e Workplace Intelligence, realizado em 2020 com mais de 12 mil pessoas em 11 países, apontou que o uso da tecnologia tem sido fundamental para lidar com questões relacionadas à saúde mental dentro das organizações. 

    A pesquisa revela que 87% dos brasileiros participantes afirmaram que soluções de inteligência artificial (IA) são imprescindíveis para o monitoramento do seu bem-estar mental no ambiente de trabalho.

    Além disso, 64% preferem interagir sobre assuntos como estresse e ansiedade com um robô em vez de tratar com seus superiores.

    Foi pensando nisso que a Hisnek desenvolveu o aplicativo IVI, que utiliza a IA com foco em prevenção, para oferecer soluções antes dos transtornos emocionais se agravarem. 

    Em entrevista para FUTURE HEALTH, a criadora do app, Maria Carolina Dassie Afonso, explica como surgiu a ideia – e a demanda – por um aplicativo que ajudasse a cuidar da saúde mental das pessoas, antes até do tema ganhar mais detaque com a pandemia: 

    FUTURE HEALTH: Quais foram os caminhos que a levaram até o empreendedorismo?

    MARIA CAROLINA: Minha trajetória é toda no mercado financeiro. Peguei uma época difícil. Na crise de 2008, trabalhava na mesa de operações do Credit Suisse e foi uma fase muito dura. Comecei a me questionar sobre o porquê de estar ali, quem era o beneficiário do meu trabalho, por que eu trabalhava tantas horas e adoecia de tanto trabalhar. Foi quando comecei a pensar em trabalhar com algo em que pudesse enxergar quem eu estava favorecendo. Fui, então, fazer um MBA na ​IE Business School, de Madrid (Espanha). Quando voltei, ainda trabalhei no mercado só para pagar minhas contas, mas comecei a empreender com uma amiga vendendo comidas congeladas saudáveis. Em 2014, pedi demissão e fundei a Hisnek em 2014, focada em lanches saudáveis e rápidos. Foi quando finalmente enxerguei mais propósito em trabalhar.

    FH: E como nasceu o IVI no meio desse contexto? 

    MC: Quando fundei a Hisnek, comecei a atender corporações oferecendo comidas saudáveis. 

    No final de 2018, percebemos a necessidade de desenvolver um produto que fosse além da saúde do corpo: foi quando a IVI nasceu, como uma assistente virtual para saúde emocional e bem-estar. 

    Ela nasceu porque nosso cliente, na maioria dos casos, é o RH. Estreitando relacionamentos, percebemos que, independentemente do tamanho da empresa contratante, o RH tinha dificuldades em promover a prevenção de doenças mentais. Quando eles ficavam sabendo, o colaborador já estava em uma situação de pedir afastamento. 

    Pesquisas na área apontam que há muito tabu sobre saúde mental, que o colaborador tem medo de pedir ajuda e vai mascarando ao máximo. Isso faz com  que a corporação não seja capaz de conter ou de prevenir os casos.

    Então, entendemos que se desenvolvêssemos uma ferramenta tecnológica que oferecesse aos colaboradores de nossos clientes a tranquilidade do anonimato, ela poderia ajudar a quebrar o tabu sobre saúde mental. 

    FH: E como surgiu a ideia de usar inteligência artificial para lidar com o problema?

    MC: Tínhamos um mindset: as pessoas tinham que poder se cuidar antes de adoecer. No Brasil, há 5,7 psiquiatras para cada 100 habitantes. Logo, se deixamos os nossos problemas de saúde mental chegarem à fase crônica, fica mais custoso para todo mundo. A inteligência artificial foi uma maneira de garantir o anonimato para os usuários. Como muitos se sentiram mais confortáveis em falar com uma máquina, quebramos o silêncio sobre saúde mental e geramos escala. 

    A dor da saúde mental já estava por aqui antes da pandemia e de lá para cá se agravou. Em 2017, tivemos 165 mil pessoas afastadas pelo INSS por causa da saúde mental. E agora em 2020 foram 550 mil.

    FH: Como é possível prevenir transtornos mentais por meio de um aplicativo?

    MC: A IVI está baseada em um algoritmo que é estruturado como um funil de saúde mental, embasado em protocolos clínicos com validação nacional e internacional. 

    Quando o usuário interage com a IVI, ela cruza as informações fornecidas com essa base de dados e identifica em que etapa do funil ele se encontra: verde, amarelo ou vermelho, sendo o primeiro mais leve, o segundo moderado e o terceiro mais sério. 

    Com base nisso, o aplicativo sabe o que sugerir seja para manutenção do bem-estar, no estágio verde, seja para despressurização, em estágios amarelo e vermelho. Essas práticas sugeridas também têm validação científica e com comprovação de resolutividade bem embasadas. 

    FH: E quais são os passos da jornada do usuário com a IVI?

    MC: Só conectamos o usuário com psicoterapeutas se ele estiver com alta indicação de depressão e ansiedade. Com quem está estável ou pouco vulnerável, a IVI dá conta do recado.

    Usuários no estágio amarelo, por exemplo, recebem conteúdos baseados em três pilares: prática baseada na atenção plena, atividade baseada na terapia cognitiva-comportamental ou em psicoeducação. São os grandes três pilares que nos baseiam. O formato pode ser vídeo, áudio, texto, a depender da escolha do usuário. 

    A pessoa no vermelho tem dois caminhos. Quando a encaminhamos para psicoterapeuta, podemos customizar a indicação baseados no que a corporação já oferece, como planos de saúde, ou, se a empresa não oferece esse benefício, indicamos um parceiro.

    FH: E qual é o modelo de negócios da IVI?

    MC: Cobramos da corporação de acordo com o número de pessoas que terão acesso à ferramenta. E nosso contato é sempre B2B. A Hisnek não entra em contato com o colaborador. Quando o usuário acessa a IVI, indica a corporação de que faz parte e informa o CPF para logar. 

    Atendemos, atualmente, 18 clientes, incluindo Avon, Roche, Pfizer, Rodobens, Cosan etc. – empresas de variados portes e de segmentos muito diversos. E já impactamos mais de 1,7 milhão de vidas.

    FH: Como tem sido a experiência dos usuários? E o que ainda é possível melhorar?

    MC: Temos um alto nível de satisfação, com mais de 30% dos usuários engajados, o que é alto quando se compara com outros apps de saúde. Outros aplicativos somente de terapia online, por exemplo, têm em torno de 5% a 7% de engajamento no máximo. Ao compreender melhor o estado de saúde mental dos colaboradores, a  corporação é capaz de ajudar e ter bons resultados de prevenção. Baseados nas informações que os usuários fornecem, nossa área de produto, por meio de pesquisas e validações, mantém o app em constante mudança e aperfeiçoamento. 

    FH: Como a inteligência artificial atua na IVI?

    MC: Nosso algoritmo é totalmente desenvolvido em casa, pela nossa equipe, com a preocupação em entregar uma solução o mais personalizada possível. Fazendo desse jeito, vamos aprendendo como a IA se comporta conforme ela interage com os usuários e vamos monitorando e fazendo ajustes constantemente.

    Assim, o algoritmo e a IA vão ficando mais parrudos, mais capazes de oferecer uma solução certeira para o perfil de um usuário específico conforme coleta mais e mais dados de perfis variados. 

    Nossa equipe tecnológica e de inteligência de dados utiliza um banco de dados chamado GRAPHOS, da Amazon, que nos ajudam a fazer uma seleção natural dos conteúdos, oferecendo a arquitetura necessária para que tudo funcione. 

    Há dois tipos de informações que coletamos periodicamente com os usuários que são a base da alimentação da IA: checamos se o usuário foi até o final do atendimento e acompanhamos scores de bem-estar dela para acompanhar seu progresso emocional. Todo dia, a IVI pergunta sobre as emoções do usuário; e de 28 em 28 dias, ela faz perguntas mais completas a fim de fazer um acompanhamento longitudinal.

    FH: Quais são os planos para o futuro da IVI?

    MC: Atender melhor o usuário, sempre pensando em novas possibilidades para que a saúde mental seja mais acessível a todos. Uma maneira de fazer isso é compreender e disseminar a noção de que saúde mental pode ter significados diferentes para cada pessoa. Exemplo: uma pessoa que gosta de atividade física pode ter sua saúde mental baseada nesse aspecto da saúde física. Temos percebido um movimento de empresas trocando a terapia online por outras soluções porque estão desapontadas. Pretendemos oferecer soluções inteligentes e eficazes para essas questões.

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